Luzia

Ela, eu, somos sozinhas.

Não sei a altura da gente,

Mas sei que sinto-penso

uma corrente, um devaneio.

O andar é corcunda senhora

de lábios de fumo e dedos de ervas.

Unguentos matam as muitas dores.

Trabalho como sina,

não se recorda um dia

Um dia!

sequer de descanso.

Ela, em seu vagar

corpo-nu, deserto,

onde troca ao amanhecer

as primeiras mercadorias,

antes anoitecidas em cavernas.

Depois lavou roupa, limpou casa,

guardou sono alheio,

subia no caixote

para lavar vasilha,

sangrou calcinha,

pensou em morrer.

Nunca se salvou,

sempre a salvaram,

talvez se salvassem.

Há tantas elas num socorro.

Há tantas elas num só corpo.

Tentaram nos queimar, tentaram.

No entanto,

a memória pariu

um poema cumprido

nas veredas do ser.

Inextinguível retorno à terra,

Nanã guarda o segredo.

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