Enfim, eu começo a correr. Corro com tanta velocidade que meus pés parecem voar. Minhas pernas não me obedecem mais, meu corpo não me obedece mais. Ele todo se direciona para a fuga. A fuga de mim mesmo.
O céu desaba sobre mim, me molha e tenta limpar todos os meus pecados, mas eles não podem ser tirados com tanta facilidade. Exigem esforço, o esforço que o universo não teria para um pobre mortal como eu.
Meu coração bate tão acelerado, que me transformo em uma locomotiva. Minhas pernas são ativadas pela queima de combustível-pensamento que explode em combustão-ansiedade me fazendo mover na linha torta do trem da vida e na areia da praia-solitude. Não tenho força para continuar tampouco parar. Corro.
A chuva agora queima minha pele. Cada gota parece um tiro contra meu corpo. Olho para o lado e vejo outro enlouquecido. Não é um tolo como eu, mas também trava batalhas com o invencível. Meu grande desconhecido amigo é o mar. O oceano luta com a chuva e eu luto com a mente. Ambos sonhamos pelo escapismo-lua. Mas o mar, como eu, não parece que irá vencer a guerra. O que nos cabe então, se não a fuga?
Minha pele está gelada. Meu coração porém, pega fogo. Solto um grito da garganta que arde como pimenta malagueta. Grito na tentativa vã de calar o mundo. Sinto a fumaça surgir nas minhas cordas vocais, minha boca enche de luz e calor. As labaredas nascem que ao se libertarem se transformam em borboletas-palavras de ansiedade e adrenalina. O choque térmico, entre a boca e o corpo. Esse paralisa-me. Minhas pernas não decidiram me obedecer. Elas continuam a escapar do mundo. Grito mais uma vez, dessa vez berro. Berro tão alto e de forma tão animalesca que a própria chuva e seu inimigo mar se sentem intimidados. Esses congelam. O vento tortuoso que estava determinado a me vencer na nossa corrida assume a derrota, a luz se turva, a areia se estarrece. Toda a natureza contempla paralisada a loucura de um mero homem, tão menor e insignificante.
Com a quietude do lugar, percebo que estou observado pelo destino, o maior dos julgadores. Envergonhado, decido parar de correr e me jogo à areia da praia. Minhas pernas finalmente voltaram à minha mente.
Agora ao chão, no meu clímax dessa tragédia grega que acabei de cunhar, grito uma última vez. Dessa vez não é um grunhido tosco. Recito um soneto de péssima qualidade métrica, mas de muito significado para mim, quero acabar com esse show montado por mim mesmo:
-SOU SÓ UM HOMEM, NADA MAIS! EU NÃO SUPORTO MINHA PRÓPRIA MENTE, O QUE HÁ DEMAIS NISSO. ANDE NATUREZA, VOLTE A SUA NATURALIDADE! SAIA DAQUI!
– EU ME ODEIO!
Completamente assustados com os limites da sanidade do ser humano, eles retornam as suas atividades de sempre. Enfim consigo escutar o oceano ir e vir, o vento ventar e a lua a brilhar.
Meu corpo cansa, mas a mente continua a trabalhar, cada vez mais ativa, mais rápida, cada vez mais máquina e menos homem. Minha mente começa a correr em tamanha velocidade. Quem dirá mais rápido até que a própria luz.
Toda essa explosão, por uma simples faísca. A adrenalina realmente consegue ser destrutiva.
O homem que parou a natureza por uma crise.
A minha fuga infelizmente acabou. Consegui fazer a chuva fugir e não consigo fugir da minha sombra. A sombra de olhos vermelhos que me segue incessantemente. Às vezes ela está mais perto, às vezes mais longe. Mas nunca, está onde deveria. Nunca se posiciona abaixo de mim. Sempre quer me consumir, me devorar. Como faz agora com meus pensamentos.
O que antes me transformava em uma locomotiva, agora se faz um congestionamento de trânsito. Tantos carros, motos, caminhões, ônibus, até aviões e navios. Todos preciam passar ao mesmo tempo pela pequena porta-mente. Isso me enlouquece. Na verdade isso já me enloqueceu.
Minha consciência não consegue parar, meus sentimentos se posicionam como loucos, todos correm, gritam, berram, congelam a natureza e se cansam como eu. Porém, não é apenas um ensandecido, são milhares.
Minha cabeça dói. Parece a orquestra mais desarmoniosa a pisar na terra, os instrumentos desafinados, os cantores enrouquecidos de tanto gritar e o maestro já está descabelado, com a batuta quebrada e se engasga de tanto chorar.
Seja bem-vindo ou bem-vinda ao meu cotidiano.