A ANGÚSTIA DE PROMETHEUS

 O calor, a grama, o sol; juntos aquecem meu corpo. Sinto-me fundido com eles. Inspiramos e expiramos. Vivemos, se é que isso é vida. 

-A vida é tão cansativa-

Tudo que fazemos é continuar deitados, observando. Olho para tudo e nada ao mesmo tempo. Olho para mim, meu passado em busca de um futuro. Olho. Visão. Cegueira. Como pode um observador olhar e nada ver? 

Ao longo do horizonte vejo uma mulher, cabelos de gravetos. Secos como minha alma. Secos como a fome. O que será que levou aquela mulher a possuir cabelos tão secos? Desço mais. Agora não só teus cabelos são secos, mas sim toda a sua aparência. No rosto não há nada mais que lástimas. Pele suja, descalça, em meio a cidadela-ônix. Sua mão pede algo a quem passa, mas quem passa sempre a ignora. Não podem parar. Não podem parar assim como nós não podemos. Eles precisam viver, coisas que não faço há anos. A mão da mulher estende-se como se não houvesse força da gravidade, como braços tão finos podem ser tão resistentes?  Quisera eu ter tamanha resistência. Ela suplica mais uma vez. Suplica ao povo como eu faço a felicidade. “Teria algo para mim? ” A frase escapa. 

Um homem para, a observa. Na verdade, ele parece querer atacá-la. Com o estourar de uma espinha, ele expulsa a mulher-graveto de seu honorário trabalho. Eu a compreendo. A dor de ser expulsa do seu lugar de conforto é destruidora. Ainda mais quando o seu lugar de conforto é uma sarjeta.  

Meu corpo levanta, e começo a caminhar. Cansei do sol, quero só a grama. Minha mente caminha junto comigo.

Recordo-me da minha diáspora. 

Dia nublado. O céu se pintava em tons de cinza e azul desbotado. Tudo corria bem. Eu descobri o amor nas esquinas da vida. Ele, semelhante como eu, cultivava sentimentos tão puros, tão ingênuos e tão proibidos quanto os meus. Corríamos juntos para o além. Nas horas caladas da penumbra nosso afeto brilhava por todas as avenidas que cruzávamos. Como dói lembrar de mim mesmo, como dói lembrar de nós. Olhos castanhos como chocolate amargo e alma doce como sonho. Tudo ali era um sonho. Fofo, delicado e calórico. Eu era feliz. Era. Desfrutamos da leveza de um devaneio. Meu grande e único amor. Por onde será que ele anda agora? Será que perderá sua alma doce? Gosto de lembrá-lo como o vi na última vez. 

 Estávamos na minha casa. Ou melhor, estávamos no meu quarto.  Ele era tão belo. Seus cabelos de plumas e sua voz de rouxinol me encantavam como nunca antes. A lâmpada do meu quarto brilhava dourada, tornando tudo mágico. Me coloquei a poucos centímetros dele. Senti sua respiração. Seu corpo cantava agitado como um pássaro cantava por sua liberdade. O meu também também cantava. Infelizmente meu corpo perdeu a voz quando deixei de ouvir a dele. Que saudade de sentir as borboletas no estômago. Hoje todas estão mortas. Como um pássaro livre da gaiola, sentia que a qualquer momento ele levantaria voo e se perderia nas nuvens do sucesso, me deixando de mãos vazias, mas ele não fará isso. 

Suas asas não eram de cera. Poderia voar até o sol e voltar apenas bronzeado. Poderia ir ao universo ver sua história, sua origem, descobrir o mistério do que nos faz humano. Poderia tudo e quisera eu. Logo eu. Um desafortunado da vida.  Ah, meu amado Ícaro. Por que não fugiu? 

Como disse, suas asas não eram de cera. 

Porém as minhas asas eram. Dentro do quarto, encarei o céu. Vi uma estrela amarela-luz, quente, convidativa. De soslaio também, mirei o mar. Vi nele outra estrela, mas essa era  fria, soturna e assustadora. A estrela do céu brilhava tamanha que me hipnotizava. Voei em direção a ela. Senti o calor. Roubei-lhe um beijo. Estava voando no céu  e beijava-o. Porém o calor da estrela queimou minhas asas. Contemplando a estrela do céu, fui jogado à estrela do mar. A porta se abre. A água do mar engana meus sentidos. Meu pai para na porta. Foi astuto o suficiente para ver dois pequenos jovens descobrindo o amor. Agora, ela começa a entrar nos pulmões, me sufoca. Como algo que nos dá a vida pode nos matar? Meu pai começa a gritar. É nítida a decepção no rosto dele, é nítido como ele nos vê. Duas aberrações. A água me atordoa, faz a mente cambalear. Meu pai soa distante, abafado, seu rosto vai sumindo quantos meus olhos turvam. Meu coração, porém, bate num estrondo como se fosse uma metralhadora descarregando. A voz do meu pai volta a soar cristalina e ele cospe:

– SODOMITAS! PEDERASTAS! NOJENTOS!

Sai como um soco no meu estômago e no de Ícaro. Estou me afogando, na verdade a água já me afogou. Foi nesse momento que perdi minha alma. Ela se afogou no sonho perfeito. Tudo que resta é a realidade. Triste. Cinza. Ainda atônito com minha imaginação esvaindo ouço mais uma vez outra labareda de palavras:

– FORA DA MINHA CASA! E VOCÊ PROMETHEUS, NÃO SE ATREVA EM APARECER AQUI DE NOVO!

– SEU ASQUEROSO! 

Meu pai me pega pelo braço e me arranca para fora de casa, sem mochila, nem nada.Nem com Ícaro. Uma fuga em disparada ao nada começa. Minha mente ascendeu como uma locomotiva, suas engrenagens atingiam o máximo e gritavam seu som metálico, buscando a pausa causada pelo atrito. Estava morrendo de correr, e correndo de morrer. Ansioso, amedrontado, envergonhado, estava morto. Mas também vivo. Meu cérebro doía tanto, parecia querer sair pelas minhas orelhas. Meu corpo também queria ir para qualquer outro lugar. Minha boca estava seca, meus pés dormiam, meu intestino doía, meu coração queimava sangue e mandava para todo meu corpo. Já minha consciência comandava tudo. Estava fugindo, mas para onde?

Corri tanto que me perdi.Meu bolso carregava alguns trocado e me enfiei no primeiro ônibus que achei. Nunca mais vi Ícaro e me tornei um andarilho, sem nada a fazer, numa cidade sem ninguém a conhecer. Com o tempo caí num orfanato. O resto da minha inocência passei lá. Tantas pessoas,objetivos,vidas. E nada me conectava com a realidade de novo. Me sentia sempre fugindo. O remorso me consome. Como pude abandonar ele lá? Essa pergunta me tortura até hoje. É o gatilho das minhas crises de ansiedade, das noites mal dormidas, dos fantasmas do meu cérebro. Saí do orfanato sabendo apenas o nome da mulher que me deixou lá. 

Do orfanato parei na coleta de lixo. Não é muito o que recebo, mas é o suficiente para (sobre)viver. Coletar o lixo é uma tarefa que não exige pensar. Desde a morte das minhas asas pensar se tornou uma tortura. Mas como deixo de pensar?

 Logo então, vivo assim: trabalhando, dormindo, observando e pensando-sofrendo. 

Volto a trajetória que minhas pernas traçaram. Agora já estou em outro lugar. Andei tanto com meus pensamentos que já não conheço as ruas onde estou. A mulher-graveto já ficou para trás e é provável que nunca mais a veja. Como foi com Ícaro, será que ele me perdoaria depois de todos esses anos? Como ele está? Será que meu pai o matou?

 Mais uma vez minha mente me castiga. Só consigo pensar no que poderia ter sido, em o que eu poderia ter feito. Se pudesse voltar no tempo não deixaria minhas asas terem sido queimadas por ele. Voaria até o meu beijo com o sol. Porém tenho que bastar mudar o mundo na minha mente.

Cheguei numa praça. Agora a noite já se acomodou. A praça está deserta. Parece como eu. Vazia, apenas a espera do próximo dia. Observo as árvores. Em uma delas há uma pequena frase: “SEJA FELIZ” o autor diz. Quisera eu ouvi-lo, mas a vida me dirigiu para um caminho distinto da felicidade. Me mantenho olhando o escrito. As horas passam ao meu redor. Lembro-me de meu Ícaro e o coração aperta de novo. Maldito pensamento.

Algo quebra o silêncio da praça. Há uma voz no horizonte. Não pode ser. A voz de rouxinol!

O pássaro voltou para mim.  Começo a imaginar os cabelos de plumas, a alma doce e os olhos de chocolate amargo, amadurecidos e belos. Me empolgo. Sinto teu toque quente e calórico. Imagino nossa vida como seria sem aquele dia. Como teríamos sido felizes e vejo que esse futuro chegou. Será que ele vai gostar de saber que tenho um emprego? Será que me perdoou? Meus olhos inundam meu rosto ao pensar na resposta. A voz embarga; Finalmente você está aqui.

Me sinto feliz como nunca antes. Quero perguntar tanto. Quero saber tanto. “Como foi o voo Ícaro?” Tento esboçar, mas a garganta prende. Procuro me virar para ver meu pequeno pássaro e não vejo nada. Não há ninguém lá. Nem mesmo as plumas. Minha cabeça mentiu para mim de novo. 

A dor no peito volta.

Onde ele está?

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