As Emanações da Árvore da Vida.

Ein Sof

A Árvore pairava sobre Marco. Uma massa infinita de madeira que se enrolava sobre si mesma, dobrando e torcendo em padrões intrincados que se estendiam até um fim que ele não conseguia ver. A história da vida desse ser contada na tapeçaria de galhos que se entrelaçam, cada um buscando seu lugar no todo.

Os olhos de Marco encontraram um único sulco dentro da casca e traçou seu padrão, seguindo-o enquanto ele vagava pelas ondas e redemoinhos de um galho enorme. Ele mergulhou e dançou ao longo da superfície da Árvore, obstinado em seu movimento. Memórias da vida de Marco pairavam em sua mente. Ele as sobrepôs contra as formas da casca, procurando-o como um mapa. Em algum lugar, parecia, na superfície desse ser infinito, suas próprias experiências de vida foram escritas. As possibilidades do poder da Árvore o aproximaram dela. Se ele pudesse encontrar o caminho de sua própria vida, poderia traçar suas curvas para ver o destino do amigo que havia deixado para trás. A linha subiu em direção às estrelas acima, vagando como o caminho de um rio ao se reunir com o oceano.

Esta Árvore era o coração deste lugar, um microcosmo do reino maior que o cercava.

O Angelário

A clareza da visão de Marco não durou muito. Encontrar uma única pessoa enterrada em meio ao caos da criação era impossível. Contemplar a enormidade do ser infinito revelou a insignificância de sua própria vida em comparação. Uma única mancha escura perdida no céu noturno. Ele estava sozinho. Ele nunca veria seu amor crescer. Nunca mais abraçaria seu amigo. Seu futuro estava limpo. O pouco valor que tinha agora foi apagado. A percepção dessa perda tocou o coração de Marco e arrancou lágrimas dele.

Um anjo ergueu-se sobre o homem que chorava. Ele usava um traje arrebatador de tecido cinza. Emergindo de suas costas em dois grandes arcos, uma malha de folhas de papel dobradas erguia-se em forma de asas.

“Você não está perdido e ele também não”, disse o Anjo, assustando Marco. Substituindo seu rosto ausente, havia uma cúpula branca imaculada, brilhando com clareza cristalina.

“Você pode falar? O que você sabe sobre meu amigo?” A vergonha pela demonstração aberta de tristeza de Marco rapidamente se transformou em frustração – primeiro consigo mesmo, mas depois com o Anjo.

“Eu sei de todas as coisas.” O Anjo virou sua máscara inexpressiva para Marco. “Eu sou Raziel.”

Marco olhou fixamente para Raziel. Buscando uma visão de sua memória, ele esperava por alguma lembrança há muito perdida que pudesse dar contexto a esse estranho ser. O nome era familiar, mas ele não conseguia localizá-lo. Tantas perguntas, mas ele não sabia o que perguntar. Marco desejou que sua avó tivesse sido trazido aqui. Ela havia estudado as escrituras. Ela já sabia os nomes desses Anjos. A forma deste lugar. Ela poderia fazer as perguntas que dariam sentido a essa busca.

“O que devo fazer agora?” A mente de Marco estava muito ocupada repassando uma lista de arrependimentos para reconhecer plenamente a situação como ela era.

Raziel ficou imóvel e então centrou seu olhar cego em direção à Árvore como se estivesse considerando uma resposta, mas finalmente optou por não falar.

“Eu não escolhi vir para cá. Eu não queria isso.” Ao longo de sua vida, Marco foi um homem fiel. Ele sempre tentou ser gentil com aqueles ao seu redor, mas nunca buscou um propósito maior. Se ele tivesse tido a chance de testemunhar o berço da existência, ele teria recusado; ver as estrelas de baixo era o suficiente.

“Eu sei,” Raziel respondeu.

Marco assentiu, acalmando-se. “Eu estou morto? Eu vaguei pela terra como um fantasma sem comida ou água. Fiquei acordado durante noites que passam em um instante e dias que parecem durar para sempre. Quanto mais eu experimento, menos eu entendo.”

“Você não está morto,” disse Raziel, endireitando suas vestes.

“Então que lugar é esse?” Marco perguntou, firmando-se contra uma das raízes gigantescas. “Ele chega até mim com lições que não tenho capacidade de aprender. O conhecimento do infinito está aqui bem na minha frente, e tudo o que vejo são mistérios. Minha presença neste mundo não significa nada, mas me mantém aqui.”
Raziel caminhou até Marco e colocou suas mãos nos ombros caídos do homem. “É como você diz. Você está vivendo uma época que não entende – uma verdade que você deve abraçar se quiser encontrar significado em sua existência aqui.” O anjo estendeu a mão para fora, em direção ao nascer do sol brilhante. “Não deixe sua falta de compreensão diminuir o valor que você extrai dela. Quer você olhe para seus céus ilimitados ou para um único grão de areia, você o está vendo completamente. Não há palavra que não a descreva e não há silêncio que a traia. É tudo e nada em um.”

A orientação do anjo era uma porta escura pela qual Marco lutou para encontrar a vontade de passar.

“Eu entendo.”

“Não, ainda não. Mas você vai,” Raziel respondeu bruscamente. “Não procure entender. Simplesmente seja testemunha.”
Marco estende sua mão em direção ao tronco da Árvore e apoiou seu peso contra ela enquanto se virava para encará-la. Tudo nele parecia real – talvez a coisa mais real que ele já havia tocado. A presença da Árvore inundou-o, lavando o medo que havia crescido em seu coração. “O que tem dentro?”

“Madeira,” disse Raziel musicalmente. “Também nada. Todas as coisas. O que você está vendo é tudo o que é.” Raziel estendeu sua própria mão e tocou a Árvore e falou seu nome. “Ein Sof.”

Marco olhou para o rosto vazio do Anjo. A dele se suavizou em uma resolução calma. “Você pode me ensinar mais?”

Raziel puxou para trás, suas asas queimando para fora. Ele enfiou a mão em suas vestes, recuperando um livro de tamanho considerável antes de oferecê-lo a Marco.

Marco recebeu o tomo com cuidado, puxando seu peso para o corpo. Abrindo-o com reverência, ficou surpreso ao descobrir que as páginas estavam em branco.

“Isso é . . . ,” Marco parou, percebendo que sua observação era óbvia demais.

Ele olhou para cima, e a paisagem infinita de nuvens deu lugar a um pequeno bosque. Seus pés estavam plantados em terra firme no topo de uma colina desconhecida. O som de vozes femininas chegava a seus ouvidos em meio ao farfalhar das folhas. O cheiro de plantas recém cortadas tomou conta dele enquanto ele permanecia parado, atordoado. Olhando para esta cena simples, ele agarrou o livro, sentindo claramente seu propósito.

Ele seguiu as vozes em busca de algo para escrever.

Esta Árvore era o coração deste lugar, um
microcosmo do reino maior que o cercava.

Publicado por Marco

Alguém que adora história.

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