Um dia chegou, num navio negreiro,
um jovem guerreiro nascido em Luanda.
Aqui, prisioneiro, vencia demanda
com saltos no ar, pensamento ligeiro.
Travou sua luta em floresta e terreiro:
“Odé, Savará! Oh meu pai caçador!”
Quebrou a corrente, encharcado em suor,
(a carne marcada por sangue e chibata)
vagou pelas trilhas de pedra e cascata,
no escuro da mata, tocando tambor…
Num tempo distante, vejo uma fogueira
que aquece e clareia, em noite sem lua,
a dança em roda e a pele que, nua,
é como a de um bicho em corpo de madeira.
Fumaça e cachimbo de uma feiticeira
procuram segredos no interior.
Em noite encantada, vira beija-flor
a velha mulher dos cabelos de prata,
os dedos na terra (a pupila dilata),
no escuro da mata, tocando tambor…
E a mão que hoje toca o couro animal
carrega histórias de uma multidão
e assim reverbera o som do coração
(recria, num gesto, o tempo ancestral).
O toque profundo, febril, visceral,
transborda encanto, magia e calor.
(é luta, é força, axé e amor).
Criança que bate graveto na lata
é velho que ginga, em ciência inexata,
no escuro da mata, tocando tambor…
2023