A HELENA DO CAVALO DE TRÓIA


 Helena estava no limite. Não podia suportar nem mais um segundo daquilo que a anos atrás configurava o seu ofício. Mas hoje não. Ela saiu daquela vida e não planejava voltar daquela forma, ela não podia.
A respiração profunda e cansada, os movimentos repetitivos, os toques, as carícias, a penetração. Ser adentrada por outros, já lhe fora bastante rotineiro, mas com ele. Com esse ser e a situação que lhe obrigava a estar ali, era enfurecedor. Estava ficando cada vez mais insuportável. A cada momento o vislumbre dele a enjoava mais. A troca de olhares era mais difícil que desarmar uma bomba. Na verdade todo o clima parecia uma bomba, tudo prestes a explodir.
Como as probabilidades não estavam a favor de Helena, a bomba de fato explodiu. Ela estava farta. Ser tocada por, nas palavras da mesma “aquilo”, era mais insuportável que todas as dores que ela já sentira em toda sua vida, e ela tinha uma considerável coleção de cicatrizes, de várias cores, sabores, tons e lembranças. Ser travesti não é uma tarefa fácil, ainda mais quando se trabalha justamente com seu pior inimigo, a juventude. Ser uma professora de literatura no IFMG, já é bastante motivo para garantir um bom arsenal de cicatrizes, adicione transgeneridade a essa mistura e encontre um álbum de figurinhas completo. Mas, voltemos à bomba.
A bomba explodiu. Como era de se esperar. A explosão foi como tirar uma pedra de um sapato apertado depois de um longo dia de trabalho, só que em vez de tirar uma pedra, foi tirado sangue. Enquanto estava sendo preenchida por “aquilo” ou “ele”, no seu momento de rebelião àqueles toques, agarra o primeiro objeto que sua mão alcança na cabeceira. Ela agarrou um livro. Por muitas vezes, os livros conduziam uma série de refúgios muito bem sucedidos e agora seu papel era o mesmo, só que em vez de fugir do mundo, ela fugia de seu algoz. O livro escolhido era uma bela edição de “O Grande Sertão Veredas”, de bem escritas 600 páginas. Ah essas pobres e coitadas, nunca serão a mesma. E dispara sobre a cabeça daquele traste, com tanta força que amassou toda a história de Guimarães Rosa e seu Sertão. Ela não parou por aí, estava determinada a terminar aquela história até chegar o posfácio, tinha ficado voraz, rápida como uma lebre, mas feroz como um lobo, o livro de capa azul, estava se tornando um tom escarlate tão vivo e morto ao mesmo tempo, que assustaria a própria morte. Você deve se perguntar quem é o “traste”, o “aquilo”, ou o “ele” que recebia os ataques incessantes de um grande clássico nacional. E aviso, ele será revelado, no tempo certo.
Meu caro leitor ou leitora, para seguirmos adiante nessa história, é preciso primeiro andar para trás. Voltaremos exatamente para o primeiro encontro entre nossa donzela e seu algoz, há 5 anos atrás.
O dia despertava de um sonho azul anil com doses de vinho sangrento, como todas as manhãs nem o sol brilhava, mas todos os trabalhadores, já haviam saído de seus aconchegos e estavam indo em direção a selva cinza-concreto, para seguir suas rotinas. Na verdade nem todos os trabalhadores iam na direção da selva, existia um grupo que saia dela. Trabalhadoras, sem carteira assinada, sem marido, sem patrão. Trabalhadoras da noite, da vida, dos enfermos, dos santos e dos demônios. Elas, as prostitutas. Se você acredita que elas estarão sendo zombadas aqui, está enganado. As donas da luxúria merecem mais respeito que você, porque quando se é rejeitado pela sociedade, e lhe gritam “FALHA” ao rosto, não há muito para onde ir, se não as ruas. O grupo de proletárias ri, gargalha, chora e zomba indo em direção para casa depois de um grande dia, ou melhor, de uma longa noite de trabalho. Entre as muitas delas, existe uma que não compõe o grupo como de usual, mas não faz falta para elas. Para nós, quem falta é crucial. A mulher que não está lá é ela, Helena.
Helena é uma mulher trans, negra, de seus 26 anos de idade, que vende o corpo e a mente, já que ela além de bater o ponto nas ruas de Ouro Prata, uma não tão grande cidade mineira. Ela também estuda Literatura na mesma cidade. Foi a primeira travesti a travar as línguas dos conservadores e ingressar na federal da cidade e luta para não ser a última. Como já disse, ela bate ponto nas ruas, faz de lá o seu salário, mas não mora com suas colegas de turno, já que, como suas amigas dizem: “ Ela jura que nasceu com a bunda virada pra lua”. Helena não desiste de seus sonhos. Teve que desistir da família para nascer, essa é uma longa história será contada ao longo do que você lê, mas terá de ter a astúcia de uma lebre para achar como Helena nasceu.
A título de curiosidade: ela vive numa república, está sempre com a cara enfiada em livros (até no trabalho), é a aluna mais brilhante de seu curso (está no último período), sonha em ser professora e já é estagiária na área.
Helena não estava com as colegas. Estava atrasada para pegar o transporte para o trabalho. Ela corria em direção ao ônibus desesperada, corria como se sua vida dependesse disso. Na verdade dependia. Sair da prostituição e ir dar aula, sendo alguém como ela, exigia perfeição em todas as áreas. Ser perfeito não é uma tarefa fácil. Ela por sorte chegou a tempo de pegar o transporte. Ao entrar, foi abordada por um olhar assassino vindo do último banco, da última fileira da minhoca de metal. O olhar era tão fixo e assustador que tinha a capacidade de cortar tudo até a vida. Quem desbrava esse par de olhos amedrontadores era um homem. Alto, de uns 45 anos, corpo nada atlético e aparência vil.
Como não havia lugares para se sentar, ela permaneceu em pé, apoiada e desviando todos os olhares possíveis daquele homem, asqueroso. Ao chegar no ponto de sua parada, ela desce como se fosse invisível. Há momentos na vida que superpoderes viriam a calhar, mas como essa não é uma história que os cabe, eles não apareceram. Ela desceu como se estivesse invisível. Não acreditava em Deus, mas neste momento rezava para tudo que havia na terra impedisse aquele homem asqueroso de seguir o mesmo curso que ela, e descer no exato ponto de sua partida. Infelizmente, o homem asqueroso, de olhar assassino decidiu fazer a mesma rota que ela.
O caminho para a escola, ainda estava relativamente distante e as ruas que o antecediam eram bastante vazias. Helena estava em pânico e tinha que disfarçar que tudo estava normal. Já estava acostumada a ser perseguida por mal-encarados, com olhares que cortam até a vida. Não era sua primeira e ela fará de tudo para não ser a última. O homem desceu e andava rápido como um lobo prestes a caçada. Esse momento da perseguição é o pior de todos. Não é a hora de correr, muito menos a hora de parar. Os segundos que antecedem o caos, que são eternos.
O que estamos vendo agora é uma luta entre um lobo e um cervo. O cervo se prepara para fugir e o lobo se prepara para atacar. Helena começou a correr, num rápido soslaio ela percebeu que o Homem também estava correndo. Ela acelerou, as lágrimas escorriam pelo rosto e se transformavam em oceanos abortados. Não queria morrer, não queria.
Ela continuava a correr desesperadamente, e sentia cada vez mais o homem em sua cola. No clímax de tudo ela decide girar a situação. O cervo se vira e olha fixamente para o lobo. Mas houve uma transformação, as cartas foram viradas. Agora o lobo é o cervo e o cervo é o lobo. Helena está decidida a atacar e uiva com bravura contra o agora cervo, tem as mão um canivete e ao rosto uma expressão de morte. O cervo coagido, se recolhe. Nenhuma palavra foi trocada, apenas as que ficam nas entrelinhas. Tirando a perseguição na selva de pedra, o dia foi bastante monótono. O estágio foi normal, na volta o pânico de Helena foi em vão, o homem-cervo-lobo não estava lá. Poderia me estender mais nesses pequenos detalhes, mas o apogeu clama pelo avanço da história. Mas darei um breve resumo, Helena nunca mais viu o motivo do incidente, conseguiu seu diploma e agora, 5 anos depois, trabalha como professora numa cidade próxima.
A jornada dela como primeira professora trans do IFMG foi bastante interessante. No início achou que seria mais um ambiente tóxico e que ela seria vencida pelo preconceito, mas lá era bastante acolhedor e os poucos tabus que lá existiam, foram quebrados com maestria pela mesma. Dentro da escola ela cultivou muitas amizades, sendo uma delas um aluno, do primeiro ano, mas muito maduro. Seu nome social era Aquiles, um menino muito doce e alegre, que carregava muitas dores vindo de casa. Ele nos é crucial. Agora, vamos aos espinhos.
O dia começou como os outros, agora tinha uma rotina mais saudável e não precisava correr atrás de um ônibus. Era final do primeiro trimestre. Chegavam aí, as semanas de recuperações, conselhos de classe e a tão temida Reunião de Pais. Uma travesti dando aulas para adolescentes, por mais que não seja um problema para eles, é algo grandioso para os pais. Em todas as reuniões um maremoto de ansiedade, medo, pavor e falha, vêm-lhe à cabeça. Por sorte talvez, tenha ido bem em todos os encontros. Sem nenhum problema, questão ou inquietação vinda dos pais. Mas essa nova reunião carregava um exército de gregos dentro um grande presente.
A reunião começou. Como de costume, antes de começar a falar, ela sempre procura olhar o auditório, num rápido panorama, ela encontra o homem asqueroso que a perseguiu anos atrás ao lado de seu aluno favorito, Aquiles. Aquiles era um aluno brilhante na sua matéria, sempre muito aplicado, e que sempre desabafava com Helena sobre ser reprimido em casa por ser um menino trans. Seus pais sempre o maltratavam e nunca respeitavam seus pronomes. O IFMG era o lugar onde ele podia ser verdadeiramente quem ele é. E Helena, por ser trans, conhecia a dor dele como mais ninguém podia. Agora tudo fazia sentido e se encaixava na cabeça dela e com o entendimento todas as memórias retornam como um soco em seu estômago, o que mais a assustava era que o homem a olhava fixamente. Como no ônibus ela evitou o máximo de contato possível, e como na rua ele a perseguiu, ao final da reunião se aproximou dela e pediu para conversar em um local particular. Inicialmente ela cogitou recusar, mas pensou ser algo para Aquiles. O momento entre a sala de audições e a sala dos professores parecia interminável, a tensão de estar correndo perigo a assustava tanto, mas o que iria fazer? Correr da escola? Ela não via sanidade naquelas ações. Quando chegaram à sala, ele fechou a porta, mas não a trancou. Ela estava atenta como um gato, pupilas dilatadas, boca seca, corpo eriçado, a barriga chegava a doer.
Nem a porta batia e as palavras já foram dispersadas: — Você que é a gata fujona— O tom jocoso era nítido. Ela não respondeu.
— A poucos anos atrás eu via você rodando bolsinha nas ruas e agora você está se sentindo como se realmente pertencesse a esse mundo.
Ela continuava sem responder.

— Eu só queria conversar, gatinha. Nunca tinha saído com você, e aquele dia você estava tão linda, que não me controlei. Mas você estava tão assustada. — Agora Helena passava por um misto de nojo, medo e susto. O que “aquilo” queria.— Bom, não estou aqui para relembrar o passado. Estou aqui para propor algo. — Essas combinação de palavras era assustadora e cheirava a chantagem, jogo sujo — Eu sei que a escola toda sabe da sua situação, mas sei que eles não sabem do seu trabalho antigo, e acho que os pais, não iam gostar de saber que os alunos estavam tendo aula com uma mulher da vida. O que eu proponho é que você faça uns bicos do seu antigo trabalho pra mim e eu fico caladinho.
Helena finalmente teve uma resposta:
— Não acredito que você veio até aqui para me tratar com tanto desrespeito, isso é um ultraje contra sua filha — o uso dos pronomes era principalmente porque ela estava preocupada com a situação de seu grande amigo, mas como sempre é astuta. Começou a tentar sair por cima da situação— Não sou a única em situação vulnerável. Seu filho… filha estuda aqui. O que acha que vai acontecer com ele ao descobrir isso, e a sua esposa? A escola?
Depois dessa resposta e um longo debate, e várias tentativas de fuga da Helena, que foram paradas por ele. Ambos perceberam que os dois dependiam um do outro, o algoz de Helena não podia ser exposto, já que prezava muito pela sua família e Helena dependia dele, por não fragilizar sua situação na escola. Ambos conectados por um fio desagradável que poderia machucá-los. Ela não sabia o que fazer, no momento eufórico disse que aceitaria o acordo.
Agora finalmente chegamos ao início da história, ou no final. Meu caro leitor, Helena estava tão irritada com a situação que se via presa, que sabia que aquele homem, não a procuraria só uma única vez. Ele seria um bicho-papão sempre a caçá-la até que ela fosse consumida por completo. Decidiu então revisar as cartas tiradas pela cartomante da vida, e reescrever a própria história. Ela não havia enfrentado tudo na vida, para apenas se transformar num brinquedo de um qualquer.
Ele estava começando querer penetrá-la, ela não iria aguentar aquilo, ela não conseguia. Simplesmente não dá para voltar para algo que você jurou para todos que conhece que nunca cairia nessa de novo. As carícias a matavam por dentro, os toques, a respiração pesada parecia de um urso prestes a hibernar. Tudo era insustentável. No seu ato de fúria e liberdade, ela lança com toda sua força possível o Grande Sertão Veredas sobre a cabeça de seu algoz, ela fez tão rápido que ele não conseguiu nem reagir, apenas sua mão ficou no pescoço dela. O acertou tantas vezes, que havia uma hora que ela não sentia mais nada que fazia, só repetia. De repente depois que os gritos pararam, apenas sobrou o silêncio que nesse momento era ensurdecedor.
Tudo que sobrou era o que antes fora um homem, um lençol, um livro e dez unhas postiças que agora brilhavam sangue.
Como ela se livrou daquele corpo é bem simples. Mulheres que trabalham com o corpo sempre possuem uma grande rede de contatos quando o assunto é a morte de um cliente. Bastou uma ligação a uma antiga colega e o corpo foi retirado, e em poucas horas despareceu, como se nunca tivesse existido.
Pode parecer que o problema foi resolvido rápido, mas o pior ainda está por vir. O remorso. O remorso corrói a alma, como uma batata cozinhada que passou do ponto, parecer estar firme, mas basta um leve toque para despedaçar tudo. Se pudesse ter uma definição para o que é o remorso, sem dúvida a cena de Helena encaixava perfeitamente. Calada, nua, ao pé da cama, a expressão de pânico e medo, tentando se secar. Sua amiga mandou-a não conversar com ninguém e ficar trancada no hotel, em que tudo aconteceu até ela voltar, mas ela não conseguiu seguir essa simples ordem. Ela precisava conversar com Aquiles, precisava se desculpar.
Agora nos segue a pequena conversa entre os dois:

— Alô?

— Sou eu, Helena……….. preciso falar com você — começa a chora — eu sinto muito…. DESCULPA!!!

— O que tá acontecendo? Tá tudo bem?

— Eu não…… tive a intenção.
— Do que?
— De matar…………….. seu pai 

— Como??????
— Desculpe.
— Não precisa pedir desculpas.

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