Foi na sombra de uma goiabeira,
como Newton embaixo da maçã,
num domingo, bem cedo, de manhã,
que me veio à mente essa doideira:
inventar uma nave bem ligeira
e fazer do Universo um tobogã.
Numa velha garage, à luz de velas
construí minha nave espacial,
pra voar bem veloz, entre as estrelas,
explorar o espaço sideral,
qual Colombo nas suas caravelas,
Trieste no oceano abissal.
Foi de ouro, de aço e diamante
é que fiz o meu disco voador.
Nuclear combustível no motor,
enfeitado com fitas cintilantes
equipado com mil alto-falantes,
e estandarte com pétalas de flor.
Quando a nave foi rumo ao firmamento,
viajou por Saturno e por Plutão,
foi também procurar inspiração
e achar n’outros mundos um alento,
que na Terra o que reina é o sentimento
de injustiça, miséria e exploração.
Muito longe, na beira do infinito.
entre sóis, luas e aglomerados
encontrei um planeta colorido
e pousei minha nave, já cansado.
10 mil anos se passam num corrido;
7 leguas, num palmo acanhado.
Caminhando no chão desse planeta,
respirei o seu ar, bem à vontade
e senti o puxão da gravidade,
e ajustei o andar da ampulheta,
percebi, no horizonte, a silhueta:
entre luz e poeira uma cidade.
Ao seguir devagar em linha reta
vendo luzes piscarem, bem distantes
encontrei colibris e elefantes,
camundongos e enormes borboletas.
Vi também invenções obsoletas
carregadas por verdes habitantes.
Monumentos fantásticos, ruínas,
esfinges e pirâmides pintadas;
faraós cobertos de purpurina
e muralhas de pedras encantadas;
um jardim suspenso por serpentinas
e uma festa em usina abandonada.
E se acaso houvesse um ser Divino
habitando o espaço-tempo sem fim,
mostraria a verdade para a mim,
transparente, qual lago cristalino:
este lindo planeta, meu destino,
é a mesma velha Terra de onde vim.
2019