Me banho em águas noturnas,
passeio em veredas secretas.
Silêncio, escondido em fissura,
rompendo, feroz, numa fresta,
encerra todas amarguras
que esperam chegar um cometa
nas setas que apontam, soturnas,
escuras trilhas na floresta.
Teu corpo é foz e cachoeira,
ribeira, açude e lagoa.
Teu leito é rio sem pressa
onde construi minha canoa.
É água gelada na noite;
é leite de onça e leoa
e jorra, queimando, em segredo,
meu peito de bicho que voa.
O gozo, amigo, me leva;
o riso, despido, me traz.
Me banho em fogo e em terra –
em rocha que se liquefaz –
bailando uma dança de guerra,
berrando um grito de paz.
Se meu corpo é templo sagrado,
guardado no teu ele é mais.
2023