Não tenha medo, criança:
vem olhar pela janela
(vasta e luminosa tela
onde dança o universo),
que o tempo, já reverso,
vem tocar sua pele fina
e o Sol, sob a colina,
já descansa, submerso.
Vem brincar, não tenha medo
que a vida é mesmo assim:
não há cercas no jardim
nem espadas de brinquedo.
Mas tampouco é pesadelo
e todo choro tem seu fim
no perfume de um jasmim;
no sabor de um caramelo.
Não morra cedo, criança,
que seu riso é necessário,
ainda que solitário –
mais que o aço das usinas
ou supercomputadores,
mais que tanques militares
ou que bombas nucleares
da américa ou da china.
O mundo é sempre mudança
e é preciso na viagem
inventar nossa coragem
para entrar na roda-dança.
No final é só lembrança
de alguma primavera
ou de um tempo que ainda espera
o nascer de outra criança.
2023