Estátua retumbante no jardim sangrento.
Gadreel era um guerreiro, um guardião dos portões celestiais cuja missão era proteger o plano material de qualquer ameaça que surgisse. Em sua imponente figura, ele personificava a força e a determinação que são características dos anjos guerreiros.
Sua presença era imponente e sua armadura brilhava como prata ao sol. As asas majestosas, em um tom perolado, se estendiam para trás, denotando sua posição elevada entre os demais seres celestiais. Seu elmo dourado, com inscrições sagradas, protegia seu rosto de traços perfeitos, que expressavam serenidade e solenidade. Em seu peito, um núcleo pulsante, emitindo uma suave luminescência vermelha, evidenciava sua ligação com divindades superiores.
Estacionado na frente dos portões divinos desde que foi criado, Gadreel assumia a responsabilidade de ser a primeira linha de defesa, caso alguma ameaça se aproximasse. Ele observava atentamente o horizonte, com olhos etéreos que percorriam o infinito dos céus, sempre alerta para qualquer sinal de perigo. Seu dever, seu propósito, era incutido em sua essência, era algo que ele abraçava com uma devoção inabalável.
Apesar de sua grandiosidade e presença marcante, Gadreel era incapaz de interagir diretamente com os mortais. Seu corpo, criado pelos desígnios celestiais, era estranho demais para os olhos humanos compreenderem. Envoltas em uma aura divina, suas mãos e pés eram adornados por espinhos vermelhos, um lembrete constante de sua natureza celestial. Esses detalhes, mesmo que alienígenas aos olhares humanos, eram parte intrínseca de sua essência e testemunho de sua função como protetor celestial.
Enquanto o universo seguia seu curso, Gadreel permanecia inalterado em sua posição, seu ser imerso em um profundo silêncio. Ele observava o desenrolar dos séculos e milênios, como testemunha solitária das inúmeras transformações que ocorriam à sua volta, mas ele mesmo permanecia inalterado. O mundo vivenciava a passagem do tempo, com suas guerras e conquistas, mas Gadreel observava tudo isso com uma certa melancolia, pois ele não era parte desse mundo. Ele estava acima de tudo isso, um guardião imortal, preso a um destino eterno de vigilância e proteção.
Apesar de sua constância e dever inabalável, Gadreel às vezes se questionava sobre sua existência. Enquanto observava o movimento frenético dos seres humanos, ele ansiava por compreender as emoções que eles experimentavam, a sensação de tocar e ser tocado, a alegria e o amor que preenchem suas vidas. Mas essas experiências estavam além de sua compreensão, pois sua existência era voltada exclusivamente para a guerra e a proteção dos céus.
No entanto, apesar de todas as incertezas e anseios ocultos em seu coração, Gadreel permanecia firme em sua devoção. Ele sabia que sua existência, limitada em sua essência, era de extrema importância para a prosperidade dos Sete Céus. E assim, ele continuava sua vigília perpétua, entregando-se à sua missão com todo seu ser, mesmo que às vezes sentisse uma leve dor na alma por não poder vivenciar a plenitude do mundo que protegia.
A cada alvorada, Gadreel contemplava os raios dourados do sol rompendo o horizonte celestial. E à noite, quando a escuridão envolvia a terra e as estrelas refulgiam, ele erguia suas preces ao Criador, rogando por paz e harmonia em todos os universos conhecidos e desconhecidos. Sua voz ecoava nas profundezas do cosmos, tocando os corações daqueles que eram sensíveis à sua melodia celestial.
E Gadreel passou o que parecia a eternidade assim, até ouvir a Trombeta do Último dia de Israfel soar, e os portões d’Os Sete Céus se abriram para revelar Simikiel, anjo da Vingança, comandando um exército divino. As trombetas ressoaram pelos céus, anunciando o início da Segunda Rebelião, um conflito de proporções cósmicas que desafiaria a ordem estabelecida desde os primórdios da criação.
Pela primeira vez desde o início dos tempos, Gadreel abriu seus olhos, e chorando, falou pela primeira e última vez, alto o suficiente para ser ouvido por todos, mortais e amortais de todos os planos:
“Não ofereça o que não possa ser devolvido! Não existe santuário para nós, e nenhuma fruta amadurece neste bosque estéreo.”
A Segunda Rebelião havia começado.
O mar carmesim recua, deixando tudo para nós.
Sariel era determinado. Determinado a não escolher um dos lados do conflito. Determinado a continuar vivendo. O anjo se escondeu da Rebelião, vivendo como eremita nas pastagens, mesmo tendo um corpo anormal.
A Lua Minguante possuía quatro braços, pés em formato de patas e uma halo triangular em sua cabeça. Encima dela, uma chama carmesim existia.
Sariel gostava dos seres humanos e sua simplicidade. Eles não se preocupavam com a danação eterna, ou a iminente guerra (não que eles sabiam que ela ocorreria), eles somente se preocupavam com o amanhã. Quando o perguntavam o que ele fazia, ou qual era sua Graça, ele respondia:
“Eu estou satisfeito em esperar, aqui neste plano, sabendo.”
E voltava a se afastar de todos.
Sariel tinha cabelos negros como a noite e olhos de um azul tão intenso que poderiam ser confundidos com safiras. Sua presença transmitia uma serenidade incomparável, como se carregasse consigo um fragmento dos céus em cada movimento.
Apesar de sua aparência imponente, Sariel era um ser de alma gentil e empática. Ele entendia que os desejos e anseios dos seres humanos eram diferentes dos anseios dos Serafim e Vigias. Ele compreendia que, apesar de suas limitações e fraquezas, os seres humanos possuíam uma centelha de divindade dentro deles.
Nos dias mais calmos, Sariel se refugiava em uma pequena cabana na beira de um lago tranquilo. Ali, ele passava horas contemplando a natureza, observando as mudanças sutis das estações. A água cristalina do lago refletia os raios de sol, criando um espetáculo de cores que encantava o anjo solitário.
As corujas se tornaram suas companheiras silenciosas ao longo dos anos. Atraídas por sua aura pacífica, elas pousavam em seus ombros e sussurravam melodias suaves em seus ouvidos. Sariel ouvia atentamente, sabendo que cada som carregava uma mensagem oculta do universo.
Embora Sariel caminhasse entre duas realidades, ele tinha uma convicção inabalável. Acreditava que a paz era possível, até mesmo no meio do conflito. Ele se dedicava a encontrar a beleza nas pequenas coisas, a reunir fragmentos de esperança e espalhá-los como sementes pelo mundo.
Enquanto o destino dos Serafim e Vigias estava entrelaçado em uma batalha épica, Sariel permanecia um observador, um guardião discreto. Seu propósito era lembrar os seres humanos da magia que existe na simplicidade do cotidiano, na conexão com a natureza e com os próprios corações.
À medida que a Terra puxa a Lua, a Lua puxa de volta a Terra. Para cada força, sempre existirá outra em perfeita oposição. A vida dos homens e dos anjos são semelhantes. Embora o poder de um possa ser maior que o do outro, suas existências se refletem.
Quando a guerra começou, o Anjo ficou longe da onda de morte que se espalhou pela Terra. Arriscar a própria amortalidade na luta parecia não valer a pena correr o risco. Sariel estava empoleirado acima de tudo, esperando que a onda de derramamento de sangue recuasse. Ao fazer isso, seu poder recuou também.
Suas pernas foram desfeitas, e essa necrose se espalhava para o resto do seu corpo, sua coruja o abandonou, e seu halo caiu em seu rosto e deixou uma mancha branca em seu formato lá, antes de desaparecer.
Sariel esperou pacientemente e se viu definhar. Esperou que chegasse a sua hora, para se aventurar e recuperar a sua liberdade entre as estrelas. Mas isso nunca aconteceu. Com a chegada da conclusão da guerra, chegou também o fim de Sariel, anjo da Lua Minguante.
Nos dias finais, quando a poeira da batalha final se assentou, Sariel encontrou-se sozinho, em um mundo desolado e em ruínas. Os resquícios de uma civilização outrora próspera estavam agora espalhados pelo chão, testemunhos silenciosos da destruição que ocorreu.
Enquanto caminhava por entre os escombros, Sariel viu fragmentos das vidas que um dia existiram. Pinturas desbotadas de Vigias sorridentes, anotações pessoais que nunca seriam lidas novamente, artefatos quebrados que não mais seriam tocados pelas mãos divinas. Cada objeto criava uma dor lancinante no coração de Sariel, como se carregasse consigo o peso de todas as vidas perdidas.
E foi nesse cenário de desespero e tristeza que Sariel encontrou consigo mesmo a vontade de se deixar levar, e, entre um suspiro e uma brisa, seu corpo se desfez pela última vez, finalmente se juntando ao Universo.
Um barquinho de papel na direção de um bueiro.
Ananiel, o anjo dos mares, estava cheio de inseguranças e dúvidas. Apesar de passar seus anos formativos ensinando à humanidade os segredos do oceano e como navegar em suas profundezas, ele tinha um medo constante que o assombrava. Seu medo não apenas vinha da perspectiva de ficar sozinho, mas também da possibilidade de perder aqueles que amava. Acima de tudo, Ananiel tinha um profundo medo da própria morte.
Devido ao seu corpo serpentino e escamoso, ele era incapaz de aventurar-se em terra firme como os outros anjos. Por isso, ele passou toda a sua existência no mar, mergulhando em seu reino líquido, desvendando seus segredos e compartilhando seu conhecimento com os marinheiros e navegantes. No entanto, essa limitação física também o envergonhava e fazia com que ele se sentisse fora do lugar.
Ananiel procurava esconder sua tristeza e insegurança por trás de um véu que cobria seus olhos. Ele acreditava que, ao ocultar suas lágrimas frequentes, também seria capaz de esconder suas fraquezas. Seu coração pesava com o fardo de sua própria inadequação, enquanto seus olhos refletiam a imensidão do oceano que ele tanto amava e temia.
Enquanto a Segunda Rebelião se espalhava pelos céus, com anjos lutando uns contra os outros, Ananiel e sua leal armada permaneciam nas profundezas do oceano, aguardando silenciosamente. Muitos questionavam por que eles não estavam participando ativamente da luta, como os outros anjos. Alguns até chegavam a questionar a lealdade de Ananiel.
Sempre que alguém o questionava, ele respondia de forma solene e serena: “Vejam o horizonte, meus filhos, olhem com seus próprios olhos. Essa guerra traz consigo correntezas mais mansas e poucas tempestades. A glória da vitória um dia será nossa.”
Essas palavras eram uma justificativa, uma desculpa para sua ausência. Na realidade, Ananiel preferia permanecer seguro em seu reino marinho, longe do tumulto e da violência que acompanhavam a guerra. O medo de perder seus amigos e enfrentar a própria morte o paralisava, tornando difícil para ele tomar parte nessa batalha celestial.
Em sua mente atormentada, Ananiel tinha uma visão distorcida do conflito: uma tempestade furiosa de asas e espadas, nuvens negras carregadas de tristeza e destruição. Ele não conseguia imaginar um mundo no qual a paz pudesse prevalecer. Acreditava que, ao se distanciar da batalha, ele também estaria se distanciando da dor que ela trazia consigo.
Um dia, enquanto observava o sol se pôr sobre o oceano, os barcos humanos começaram a se mover em direção à costa, prontos para se juntar à batalha. Ananiel sentiu o pânico se apoderar dele. Sua voz ressoou nos ouvidos dos navegantes, implorando para que ficassem, que abortassem sua missão. Mas suas palavras foram ignoradas, seu apelo desconsiderado.
Então, em um arroubo de raiva e desespero, Ananiel convocou as ondas do mar para fazer o que suas palavras não podiam. Ele ergueu-se das profundezas, erguendo suas mãos com um poder até então desconhecido. As águas se ergueram e se lançaram violentamente contra os barcos humanos, afastando-os da costa até que a terra se perdesse no horizonte distante.
Em vida, os primeiros marinheiros foram seus acólitos. Na morte, eles eram seus próprios homens. E com o final do conflito, também se foi Ananiel, anjo das Tempestades.
Se banhe em ouro, mas chore diamantes.
Turiel, o poderoso anjo com uma compleição que rivalizava com os titãs do passado, comandava a atenção por onde passava. Sua imponente presença projetava uma longa sombra, e a mera visão dele causava um suspiro coletivo entre os espectadores. Era como se o próprio ar ao seu redor estivesse carregado de expectativa, pois Turiel não era um ser comum.
Histórias de suas proezas extraordinárias percorriam de boca em boca, com cada narrativa enfeitando os detalhes um pouco mais. Desde batalhas contra criaturas míticas temíveis até combates contra gigantes, as histórias de Turiel se espalhavam como fogo, capturando a imaginação de todos que as ouviam.
Tal fama não vinha sem sua justa dose de adoração e bajulação. Turiel frequentemente se encontrava no centro das atenções, um farol para aqueles que buscavam seu favor. Pessoas de longe e de perto se reuniam nos locais públicos, esperando vislumbrar o lendário anjo em ação. Eles traziam oferendas de comida e bebida, na esperança de conquistar seu favor e se banhar em seu brilho radiante.
Mas não eram apenas presentes materiais que lhe eram concedidos; ainda mais valiosas eram as oferendas intangíveis de amor, lealdade e admiração. Turiel era celebrado não apenas por sua força física, mas por sua personalidade carismática que cativava corações. Seu charme magnético e sua conduta nobre atraíam as pessoas, fazendo-as ansiosas por fazer parte de sua história, mesmo que apenas por um breve momento.
À medida que os anos se passaram, Turiel começou a sentir o peso da solidão e o vazio de suas conquistas passadas. Cada vez mais isolado, ele se viu consumido por uma ganância insaciável, uma sede por poder e riquezas que nem mesmo suas gloriosas batalhas puderam saciar.
Deixando para trás sua caverna nas montanhas, Turiel partiu em busca de tesouros escondidos e segredos antigos. Ele se transformou em um explorador incansável, navegando por mares perigosos e adentrando em selvas inexploradas em sua busca frenética por ouro e joias preciosas. Nada o deteria em sua avidez desenfreada.
À medida que suas riquezas se acumulavam, a personalidade de Turiel mudava. Ele se tornou um anjo sombrio e desconfiado, desconfiando de todos ao seu redor. Sua ganância o colocou em conflitos perigosos e traiçoeiros, alimentando-se de qualquer pessoa que ousasse cruzar seu caminho em busca de sua fortuna.
Mas, enquanto nadava em uma montanha de riquezas, Turiel percebeu tarde demais a sua própria ruína. A ganância o consumiu completamente, transformando-o em uma estátua de mármore brilhante. O seu tesouro se tornou uma prisão, um lembrete constante de sua decadência moral e destruição emocional.
Acabou sozinho, cercado por seus bens materiais, mas sem ninguém para compartilhar sua riqueza ou sua vida. A solidão e o pesar tornaram-se companheiros constantes, transformando sua existência em um vazio insuportável. E, vindo o último dia da Segunda Rebelião, também se foi Turiel, Herói Imemorial.
O teatro pode durar para sempre.
Sathariel, o enigmático segundo Guardião do Sul, ocupava uma posição de extrema importância ao lado de seu mestre. Com um olhar perspicaz e uma língua afiada, Sathariel possuía a rara habilidade de desvendar a verdade e habilmente tecê-la em uma delicada trama antes de entrelaçá-la com a própria realidade. Cada palavra que ele falava era meticulosamente elaborada, cada gesto perfeitamente cronometrado, enquanto ele trazia suas histórias à vida com facilidade.
Mas não eram apenas suas palavras e gestos que cativavam os corações e mentes daqueles que ouviam. A forma física de Sathariel em si era uma obra de arte, um fascinante espetáculo de arte divina. Os padrões que adornavam suas asas iridescentes ondulavam e mudavam com cada interpretação, realçando o impacto de suas histórias e elevando-as a um nível extraordinário. Era como se cada palavra que ele proferia estivesse impregnada da essência da verdade, ressoando profundamente nas almas de sua audiência.
A habilidade de Sathariel para contar histórias não conhecia limites, e seus talentos eram cobiçados por muitos. Dos grandes conselhos de seres celestiais às humildes reuniões de mortais, ele brilhava em todos eles com sua presença e deixava todos maravilhados. Suas apresentações não eram apenas entretenimento, mas experiências transformadoras que deixavam uma impressão duradoura em todos que tiveram o privilégio de testemunhá-las.
No entanto, apesar dos seus talentos e da adoração que recebia, Sathariel manteve-se humilde e dedicado à sua arte. Nunca procurou reconhecimento ou aplausos para si mesmo, mas sim regozijou-se com a alegria que trouxe aos outros através das suas histórias. Essa alegria era sua verdadeira recompensa, superando qualquer reconhecimento material.
Infelizmente, quando chegou a hora do seu derradeiro ato, a morte de Sathariel aconteceu sem que ninguém desse por ela, abafada pelos aplausos retumbantes da plateia. Os presentes ficaram maravilhados com a maestria da sua performance, sem saberem que, no processo, seu coração fora perfurado. Como o sacrifício supremo de Sathariel foi perfeitamente incorporado ao desfecho do espetáculo, seu gesto heróico foi unanimemente aplaudido.
No clímax da apresentação, Israfel habilmente executou seu bendito instrumento, enquanto Sathariel, envolvido em suas fantasias, não percebia que o mundo ao seu redor estava desmoronando. Foi então que Remiel, o Anjo das Visões, localizou-o e enviou sua lança fiel para pôr fim à sua existência.
E embora sua forma física possa ter perecido, o legado de Sathariel viveu nos corações e memórias de todos que foram tocados por sua arte de contar histórias. Sua habilidade de tecer a verdade na própria tapeçaria da existência e transportar os ouvintes para reinos além de sua imaginação seria lembrada para sempre.
Acima do firmamento estrelado, Deus julga, como nós o julgamos.
Um comentário em “Contos de Antes, Durante e Depois da Era dos Vigias | Volume II”