Conforme o homem e a menina percorriam o antigo campo de batalha, seus passos despertavam as lembranças de um tempo distante. O que antes era um prado sereno, agora estava repleto de vestígios de um conflito celestial. O ar carregava sussurros de lendas esquecidas, e o suave ruído das asas angelicais ecoava através da alta grama.
O homem, cativado pelo mistério do lugar, questionava em voz alta sobre os seres celestiais que uma vez habitaram aquele solo. Ele imaginava sua magnificência, sua beleza etérea, e o poder inimaginável que possuíam. Seriam eles emissários da luz ou agentes do caos? Uma infinidade de perguntas preenchia sua mente, deixando-o maravilhado com a história que se desdobrava diante deles.
A menina, segurando firmemente a mão do homem, olhava para ele com olhos arregalados, sua curiosidade brilhando. Ela perguntou quem eram aqueles anjos e por que lutavam entre si. O homem, rico em imaginação, criou contos de batalhas épicas entre forças celestiais, cada uma com seu propósito e ideologia.
Ele descreveu seres angelicais com asas majestosas que cintilavam como pedras preciosas, com halos que irradiavam um brilho celestial e caloroso. Alguns lutavam pela justiça, defendendo os fracos do controle abusivo. Outros, corrompidos pela ganância, sucumbiam às tentações e usavam seu poder celestial para satisfazer seus próprios desejos maliciosos.
Intricadas hierarquias e infinitos reinos ganhavam vida através das histórias do homem. Ele falava dos Serafim, a ordem mais alta dos anjos, cujas asas flamejantes eram uma manifestação do controle divino.
No extremo oposto do espectro celestial, ele falava dos Vigias, outrora seres radiantes que sucumbiram à sedução do poder e do orgulho. Esses caídos, liderados por seu rebelde líder Samyaza, buscavam desafiar a própria essência do céu e sua ordem. Suas asas, antes adornadas de luz, tornaram-se símbolos de sua descida à Terra.
As histórias das batalhas angelicais que se desenrolaram pelos céus cativaram a imaginação da menininha. O homem contava sobre embates ferozes, em que espadas de pura luz se chocavam contra foice sombrias, e fogo celestial caía dos céus como cometas ardentes. Os céus tremiam com o eco de seus confrontos, e a própria essência do universo parecia tremer sob o peso de seu conflito.
Enquanto o sol se punha e pintava o céu com tons de ouro e carmesim, o homem e a menininha continuavam sua jornada. Os sussurros dos anjos caídos pareciam se enfraquecer, mas sua presença permanecia no ar, deixando uma marca indelével nos corações daqueles que tiveram a sorte de testemunhar esse antigo campo de batalha.
E assim, o homem e a menininha seguiam de mãos dadas, em um mundo sem Anjos nem Deuses.
Hiraeth
Substantivo (Galês) Um anseio espiritual por um lar que talvez nunca tenha existido. Nostalgia de lugares antigos aos quais não podemos voltar. É o eco dos lugares perdidos do passado, da nossa alma e da nossa dor por eles. Está no vento, nas pedras e nas ondas. Não está em lugar nenhum e está em todo lugar.
Contos de Antes, Durante e Depois da Era dos Vigias