Ardia o corpo, à noite, cálido,
desabrochando ao meio dia.
E o seu sorriso – luz impávida –
ao fim da tarde fenecia.
E os seus olhos eram pássaro
que sob o Sol se derretia;
a sua boca, fino cântaro,
guardava os mares da Bahia.
E sua flor se abria em pétalas –
úmidas matas de poesia –
e seu amor, de fina lâmina,
a minha carne dividia.
O meu desejo, matemático,
que a vida não subtraia,
forçava rimas sobre sílabas
quando mais nada se entendia.
Não foi Mercúrio, que retrógrado,
se intrometeu na fantasia,
nem foi Plutão, fora de órbita,
que desviou a estrela-guia.
Nem mesmo a física dos átomos,
em sua quântica magia,
que em movimento telegráfico
rompeu em louca epifania.
Foi no seu corpo, à noite, cálido,
que me abriguei da luz do dia.
A minha dúvida, impávida,
naquele instante fenecia.