Sufoco

última página de água viva, Clarice Lispector:

“E eis que depois de uma tarde de “quem sou eu” e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero – eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simples eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar.

O que te escrevo é um “isto. Não vai parar: continua.

Olha pra mim e me ama. Não: tu olhas pra ti e ti amas, é o que está certo.

O que escrevo continua e estou enfeitiçada.”.

Eis me aqui, senhor!

Criticando a imaginação de senso comum sobre o seu amor,

eis me aqui, senhor!

Tão envolto ao mundo,

que quando durmo meu coração fica mudo

do barulho que me cobria desaparecendo,

e faço parte de ti, e faço parte de ti, senhor!.

Na realidade, quando digo “senhor”;

digo “tudo”, não por que és tu tudo,

mas porque é nada,

o tudo me é nada pois apenas

quando durmo: quando me sou nada,

quando balbucio minha existência,

é faço parte disso por inteiro,

disso que não me sou eu

disso que aparenta ser tudo,

e sou tudo, sendo nada.

Quando não me sou eu,

me rijo, me rijo de sentimentos,

isso tudo antes do crepúsculo que me esvazia.

E após acordar às 3 da madrugada,

penso nele, senhor!

Já que tu não me entende

talvez ache que estou me referindo ao crepúsculo,

então, penso neles, senhor!

nos dois crepúsculos.

Leio e releio:

“olhas pra ti e te amas, é o que estás certo”,

e penso que essa frase está certa,

porém eu olho pra ti e te amo,

é o que está errado e o que me sufoca,

eis me aqui, senhores!

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