ensaio sobre o terreiro da vó maria lúcia

enquanto sentado na escada, recebo sol e consigo enxergar um recorte do pé de limão. ele me convida, mas sei que não posso ir. gostaria muito de morar em suas raízes, dividindo espaço com o naipe de insetos que a fração de terra do terreiro detém. será que as pedras que ali estão já foram abraçadas hoje? ao tocá-las talvez eu possa movê-las para, quem sabe, encontrar um portal que me leve até a terra onde todos os vestidos são costurados a partir de galhos secos e folhas que se abrem durante as noites. o gato passou no terreno acima. acho que ele encarava minha consciência enquanto eu subia até o alto desses delírios para descer com meu carrinho de limão. perdi-o de vista, mas queria é peguntar, perguntar se ele tem um deus guardado no bolso para me dar. curiosidades. me pergunto: quanto do romance entre o limoeiro e o pé de mamão já se derramou sobre aquele muro cinza que está ali? as coisas baseiam-se em momentos de estar e momentos de já não estar mais e acabo de lembrar de que hoje não se choram mais contas de lágrimas no chão desse quintal. começou quando uma irmã, ninada nos ritmos de um caxixi enfeitado de azul, caiu do batuque em encontro com a terra. embrenhando-se na não mais existente fresta do bloco de cimento – palco onde as sombras do jardim se apresentam sobre os lampejos de insetos -, ela pediu licença à terra e disse como queria ficar mais próxima daquele véu azul tão similar ao que ela conhecia de dentro do instrumento originário. esticou-se por meses e chegou o dia em que ela se foi. já encostei mais em pedaços de concreto do que em terra viva. de repente deveria mudar isso, pois talvez os couros, as madeiras, as cordas, o ferro e o ar responderiam melhor ao meu toque. acho que não entendi muito bem quando meu espírito clamou de fome e eu o projetei sobre o pé de alface.

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