Esther há dias se encontrava cansada, na verdade: há meses. Olhava ao redor e não se reconhecia, mas reconhecia aqueles que a acompanhavam. Na verdade, às vezes vivia do outro e dos lugares. Mesmo que olha-se pra si demais em busca de uma resposta. Agradecia por ter a oportunidade de estudar, de ter uma vida boa, mas queria mais, bem mais. Esse mais resultou em um menos nela, menos sono, menos saúde, menos satisfação. Mais sucesso, mais companhia, mais esforço… raciocinava como uma criança quando dormia bem pouco, e como uma velha quando recuperava o sono perdido. Não era só seu sono que andava perdido, ela andara perdida, a espreita de algo, de alguém. Andava fraca, tendo brancos de suas vivências e de seus acontecimentos. Se perguntava se era tão inteligente assim, se era mesmo necessária, se havia algo de especial nela perto da grandeza de toda a natureza que cercava a mesma. Talvez alguém aparecesse, mas ela se perguntava se seria essa a solução. Afinal, todo relacionamento começa com muito amor, mas existem as dores para provar esse mesmo amor. Não queria ver ninguém como a resposta, queria encontrar a resposta abrupta da sua vida, que vida seria essa? Que vida ela viveu esses últimos ano? Uma vida observando e sugando tudo para si? Na verdade sua aspereza que surgia quando estava cansada não representava apenas insatisfação, representava um pedido por ajuda, mas de quem, se sabia que ninguém poderia ajuda-la?. Mas talvez exista uma esperança nela, uma esperança que a faz prosseguir sempre e dar o seu melhor, o porquê? Resposta: ela sabe que não nascera talentosa, e se tivesse nascido talentosa existiria aspectos da vida dela que careceria de ajuda. Um outro lado de sua esperança era o fato de que assim como ela via a natureza e de alguma forma se encantava com a natureza magnífica das pequenas e grandes coisas (ou de um tamanho similar, como outras pessoas), alguma coisa a veria assim também. Se cansara desse papo existencialista de se colocar ao pó por não ser tudo. As partes formam a coisa toda, ela pensava isso e reafirmava: eu sou uma parte que vai formar algo. Mas queria alguém… Ela não se impressionava com a sociedade que se encontrava, globalizada e superficial, onde um corpo valia mais que uma alma. Claro que gostava de corpos e tinha a sua sexualidade, mas além de sua razão havia uma romântica alma. Ela queria alguém para que, em uma imitação muito poderosa dos átomos que se juntam para formar gases nobres em prol de estabilidade eletrônica, pudesse amar, de verdade. E talvez ela sentisse que havia uma certa pessoa. Mas daí surge outras perspectivas, afinal nem tudo é sim ou não, quem tem muitas respostas para tudo não tem para nada. A primeira perspectiva é encontrar tantas pessoas incríveis, parecia até que não era sobre as outras pessoas mas sim sobre ela, sobre seus gostos… E se a pessoa com quem via algo não fosse a pessoa com quem deveria ter algo? Quem seria afinal o príncipe que encantaria Esther: a raposa. A segunda perspectiva era de que, nossa… e se a outra pessoa realmente não fosse para ela, o que seria dela se não encontrasse alguém?. Por incrível que pareça nessa história meio romântica, ela sabia que ficara bem, não era tão carente assim. Gostava de ser independente, estudar, e até mesmo de ter tudo sob controle dependendo da situação. Mas pensava que merecia um pouco de vulnerabilidade, sim: ela precisava. Ó querida Esther, só você conhece seu coração, mas e daí, não quer ti dividir suas sombras não é mesmo? Mas em um relacionamento haveria uma divisão de sombras, como você reagiria? Cara Esther, responda-me, está preparada para olhar ao fundo de outra pessoa? Querida Esther o que fará?
Ela pede ou vê seu pensamento se calando, e vê ou pensa em como aquilo era ansiedade. Raciocina consigo mesma:
“Talvez eu não esteja pronta mesmo, quem diria não é. Mas se eu viver imaginando quando estaria pronta, nunca viverei, pois nunca somos aquilo que idealizamos. Nunca encontraremos o ápice daquilo que gostaríamos de ser, então nunca viveríamos. Além do ma…”
Agora é minha vez, não quero que você continue falando, me cansei. Voltarei ao controle de seus pensamentos por uns instantes. E quanto ao…
“Instantes? Você quer mesmo me falar sobre instantes enquanto me envolve em sua nuvem? Clarice Lispector uma vez disse, em seus pensamentos um tanto assombrosos,: o instante é a parte mínima da roda do carro que toca o chão, sendo ao mesmo tempo que instante um não instante. Há aqui uma discordância, o fluxo dos instantes que você tanto toma de mim na verdade é considerável. Já que a vida é um finito de instantes… Se bem que se eu não ceder uma parte dos meus instantes nunca terei resposta e continuarei a mesma, a mesma pessoa, a mesma mulher. Que diferente dos homens não pode se expressar livremente sua sexualidade e viver uma vida como um acéfalo que só aceita os acontecimentos. Mas, por qual motivo precisariam? Já tem esses sucesso. Uma pessoa só busca respostas de vida quando falta-lhes muitas das coisas das quais necessita. Por isso veja bem, muitas mulheres se convertem a religiosidade, alguma se tornam um pouco fanáticas claro, mas encontram nos locais de religião um espaço para construírem suas história. Mas nada disso me impressiona, é muito fácil usar o discurso de uma força divina sem nem saber ao certo se essa força está ambientada em todo universo, é simples, é convincente, mas não me traz respostas. Ao invés disso estou discutindo com meus próprios pensamentos sobre o que eu sinto, e enrolando ele (talvez mais coisas além dele), em silêncio, para que não diga o que ia dizer. Porque aliás: você sou eu… Mas continue com o seu ‘ao’ “
Aí querida, acho impressionante o fato de conversarmos mesmo que não tenhamos acesso um ao outro. Você sabe bem que não haverá continuação do “ao” pois não me permitiste uma continuação. Mas por incrível que pareça permite que eu revele isso aos leitores. Uma bela controladora… Permite ainda que eu revele de novo isso aos leitores. O que realmente sente com tudo isso: o que precisa ser dito tão urgentemente que não possa esperar? Não é sobre controle ou não controle, não é sobre nada disso não é mesmo? É sobre a vida que ainda não compreendeste, a vida que te afeta tanto… Mas tanto,. Os elementos do externo que definem quem você é. O que és? O quê?
“Não sei… Hoje estou profundamente silenciosa e dramática, não poderei a ti dizer algo tão único como a incerteza, a insegurança e a imperfeição. Nunca poderei explicar os sentimentos e ideias que tenho, nem sei se tenho essas coisas para ser sincera. O que tenho senão alma? Algo bate em mim, sinto tudo como um terremoto, cheio de lava e coisas brotando da terra. Nada vai me chegar a conclusão do motivo pelo qual a terra bate tão forte dentro de mim, e não saberei explicar seu coração em meu coração, em nosso coração. E o motivo pelo qual ela se abre em lava e lança a todos nós sua desaprovação. Tudo começou com um não quando o primeiro ser vivo comeu a outro, quando o primeiro animal se formou e trouxe a natureza a imoralidade do medo de ser comido. Tudo piorou ainda mais quando tivemos a oportunidade de existir e dominar a natureza, como seres humanos. Ela não se importou com a imoralidade e crueldade humana, mesmo que estejamos em suas mãos e nós a definimos em nossas mãos, ela não é moral ou imoral por permitir ou não nossa imoralidade, ela é. Sentimentos tão profundos esses, o sentimento de que estou presa, presa em um cubículo que chamam de escola. Sim, amo minhas amigas, e amo algo que não sei o que é (de verdade), mas por que estou preso dentro disso se existe uma complexidade muito maior? Vários mundos a serem descobertos. O mundo das formigas, das abelhas, dos alienígenas. Por que mesmo tudo sendo tudo, me sinto tão a parte essencial para que esse tudo exista, ao mesmo tempo que só uma parte. Por que o ego humano surgiu em sua imoralidade e necessidade de dominar o outro? Fodasse se usei a regra dos porques errado nas últimas linhas, mesmo que minha professora de português já tenha ensinado, e seja uma fofa. Coitada, ele deve ter tantos sentimentos bonitos, mas é meio subestimada. Há um poder em suas mão, há obviamente um poder oculto que nos representa… mesmo, isso talvez seja a dominação. Existe um fio que liga a todos nós, às raízes do mundo. O que faria eu vendo meus amigos sofrendo e sabendo que um espírito de herói não mudaria NADA, que meu espírito é só o de entender que estamos ligados nas mesmas raízes. Aquele papo superficial de: “deixa eu te ajudar aqui, mas é só para amaciar meu ego e dizer que sou uma boa garota”. Vai se fuder, sinceramente, não existe solução que possamos fazer para o problema dos outros, enquanto não somos esses outros. Mas nos conectamos pelo fato de sermos tão diferentes, uma linha fundamentou e fortaleceu a nossa existência correlacionada. Eu amo… eu existo, eu vivo, e como termino esse pensamento? Como? O que é essa dor de viver do mundo… dor de comer e ser comido, dor de animal, dor viva. Suponho que seu “ao” seja em referência a alguém, mas esse “ao” de verdade é em relação a minha existência, simples existências que se direciona ao mundo, e a alguém.”