O ESPÍRITO DO LAGARTO DE PEDRA

Quando o tempo rodava sem ponteiro
e da terra jorravam para o ar
labaredas de fogo e, pelo mar,
criaturas gigantes que primeiro
habitaram esse mundo por inteiro
em floresta, geleira e vulcão,
rastejava a barriga pelo chão
um titânico monstro, sem igual;
um imenso lagarto, colossal,
com seus dentes e asas de dragão.

Mas um dia o lagarto aborreceu
por viver solitário pelo mundo,
recolheu-se em sono tão profundo
e nem mesmo o tempo percebeu;
por mil eras a fera adormeceu
e seu corpo hoje à terra se mistura:
sua pele virada em rocha dura,
a espinhela em grande cordilheira
de onde caem enormes cachoeiras
abrigando encantadas criaturas.

Veio o homem, montado em capital,
e chegou cá na serra do espinhaço
com tratores e máquinas de aço
acordou o espírito ancestral
que protege a pedra-animal
de quem vem pra roubar o seu valor.
João Mago é o grande protetor,
sua ginga é qual lâmina ceifeira
que a Morte carrega, alvissareira,
pra cumprir seu ofício redentor.

Mas a dança encantada de João
também tem a magia do brinquedo:
dá coragem pra enfrentar o medo
e derrete o gelo do coração.
No estouro agudo de um trovão
o calango se mostra, arretado,
e lançando o feitiço do bailado
vai-se embora, assim, num turbilhão;
num portal para outra dimensão,
viajando em sua nave no cerrado.

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