Quando eu era menor, eu tinha um amigo imaginário. Ele vivia nas paredes do mundo inteiro, como uma dimensão de paredes: com portas que levavam a qualquer lugar. Ele tinha olhos pelo corpo todo, como Argos da mitologia grega. Então ele podia ir a qualquer lugar e ver tudo, quando se pensa bem. Quase um Deus. Eu, criança, encostava nas parede e brincava que eu estava lá, andando pela casa dele (o nome dele era Isputi, com a sílaba tônica no “pu”), como um NPC bugado em um jogo. Também tinha outra amiga imaginária, uma van rosa. E tinha uma passagem do mundo das paredes para lá, então toda viagem de carro, era eu olhando para a janela imaginando a van (o nome dela era Rosa, bem original) andando paralelo ao carro, com o Isputi dentro, mais amigos imaginários.
Eu não curtia brincar de boneca com outras pessoas. Os outros brincavam de shopping, chá, etc. Eu levava as pollys numa viagem de navio pirata (um carrinho de bebê de boneca), fazia elas viajarem e serem engolidas pelo carro (eu tinha uma van de polly com um compartimento onde cabia o corpinho, sem a cabeça, e tinha uma imagem de uma porta com plantas crescendo nela, bem suspeito[talvez não fosse uma porta, mas era retangular, e eu pensava em porta]).
Eu era seletiva quanto aos desenhos que eu assistia: não assistia coisa de super heróis porque era de menino e não me interessava (que bobagem, né), tinha um medo de Dango Balango (ô marionetes do capeta) e evitava, qualquer coisa meio esquisita eu não via. Enfim, uma medrosa e chata. Mas brincava de barro, andava de bicicleta, desenhava com giz na rua e comia amora direto do pé. Criança meio raiz.
Aí eu mudei e cada vez menos brinquei na rua. Mas brincava dentro de casa, usando o quintal inteiro, usando água, fazendo bagunça. Até parar gradualmente. Não porque eu perdi o interesse, mas porque eu perdi a inocência. E brincar sem inocência me sentiu errado. E parei.