MINHA ÚNICA CERTEZA

Vinte e cinco de agosto,
já no fim da madrugada,
rebentei neste planeta
pra cumprir minha jornada
e até hoje desconheço
a missão que me foi dada.
Minha única certeza
é que em breve serei nada.

Estudei filosofia
e conheço a tabuada.
E o que a escola não ensina
aprendi na batucada.
Desconfio de doutrina,
mas respeito encruzilhada
e minha única certeza
é que em breve serei nada.

Vez em quando procurei
a verdade mais sagrada
nos retiros e nas rezas,
meditando na almofada.
Mas a reza de um ateu
é sempre desesperada
pois a única certeza
é que em breve serei nada.

Vou rimando contra o tempo
(a poesia é minha espada)
mas o tempo me devora
com uma grande gargalhada.
E se a rima corta rente
como lâmina afiada
minha única certeza
é que em breve serei nada.

Quando o mundo sacoleja
minha sorte já lançada,
prendo o ar, corro ligeiro,
cruzo a linha de chegada
penso que cheguei primeiro
mas perdi de goleada.
Minha única certeza
é que em breve serei nada.

E a vida segue em frente
na cadência da embolada,
rio abaixo e rio acima
numa canoa furada.
O destino é uma roleta
girando desgovernada.
Minha única certeza
é que em breve serei nada.

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