Um absurdo
Meu povo calado sofrendo.
Em êxtase.
Querem que eu me cale, não veja que seja surdo.
Logo eu que desde pequeno
Jogando bola no asfalto descalço
Enquanto o filho da madame joga em campo
Pra nós era vida
Pra eles descaso.
Eu que de onde eu vim as balas cantam alto
E o sabiá que não canta vira caldo.
E toda essa falsa igualdade me dá azia
Porque desde que eu me lembro
A cabeça tá cheia
A geladeira vazia.
Logo eu que amo a Alcione
Deixar meu povo morrer?
O samba já passou e o palco tá gasto
Em meio a selva de pedras caçado
Já que sem a garoupa no bolso
Todos os meus já conhecem a sensação da pele alvo.
Eu queria falar mais
Mas me dá licença que eu tenho que trabalhar
Pra mudar de vida já que eu não quero continuar nessa
Preciso ir correndo
Porque peixe que dorme na praia
A onda leva.