Quando eu era criança, assistia aos mesmos filmes várias vezes, tudo isso na esperança de que eles nunca acabassem, na minha memória. Acho que queria sentí-los por mais tempo, já que, afinal, tinham retirado-me duma realidade dessoladora em que eu estava inserido. Não só emocionalmente eu me esquivava daquela realidade, mas também em pensamento: queria viver naquele outro universo, comer nele, dançar nele… Viver todos os prazeres possíveis que a cinematografia havia permitido-me.
Mais tarde eu descobri que esse é o sentimento de um viciado, encontrar o prazer e não querer por nada desgarrar-se dele. Mas o mundo não permite o hedonismo – o prazer pelo prazer – e, se permite, só pode ser experimentado, com tudo o mais incluso, aqueles que tem dinheiro suficiente, poder suficiente. Só sonha e foge do mundo, para depois adquirir conhecimento pela criatividade e inteligência – como os grandes escritores – aqueles que podem. E quem não pode: que arrume um jeito de conseguir ou, de preferência, que não consiga nada.
O mais triste foi descobrir anos mais tarde que sempre que eu conseguisse o que eu “tanto” desejava, não seria como na infância… Eu não me encantaria e não viveria naquele mundo com a inocência que me foi dada no momento da minha concepção e raramente poderia experimentá-la novamente, o triste fim de Dante.
Sinto que minha inocência foi comprada, consumi a diversão e agora, amadurecido, tudo o que eu compro faz meu dinheiro ser jogado fora, trabalho descartado, esforço no lixo…
A única coisa que me foi dada de oportunidade (essa seria a palavra errada pois traz um sentido de utilidade que nunca poderia ser relacionado, porque de útil, o que eu senti não foi de nada) foi Aristóteles. Ele sim foi a coisa que nenhum valor poderia englobar. Sua humanidade era a coisa mais linda, seu traços: o desenho de Deus, seus olhos: a essência de tudo, seu corpo: a moldura dos anjos, sua alegria: o sol no inverno…
Mas o que nos separava? O tempo que era roubado pela necessidade do lucro, da sobrevivência baseada no esforço que se degenera, desvanece, desaparece e evapora. Não tínhamos tempo suficiente e, quando tínhamos, não era como nos ideais dos filmes, nos sonhos de uma noite de verão, nos amores americanos mastigados e cuspidos para fora dos Estados Unidos. Era calmo, paciente, silencioso, doce: ele e eu.
Mas o-fim me assustava, morria de medo da morte do nosso relacionamento. Não só disso, mas o puro e essencial ato de desaparecer. Por vezes acordava no meio da noite e pensava que eu e a morte seríamos um, e nunca mais iria encontrar ninguém (ou ninguém me encontrar). Associava o sono -a entrada para o desconhecido, viagem ao centro do inconsciente- a ela, a mais temida, a mais esperada: à morte.
Por vezes comentava isso com ele. Não entendia, achava que eu era preocupado demais. “Se acabar, acabou”. Não conseguia pensar assim, meu coração até tremia. “Se acabar acabou?”, a raiva surgia nessas situações, o ódio, a vontade de desistir… E em muitos outros. Mas sempre: continuar.
Queria experimentar aquele filme não americano para sempre, aquela sem gracisse apaixonada. Amava nossa normalidade, amava. E eu podia perder tudo isso, como todos, com um passe de mágica.
Poderia postergar tudo aquilo por mais tempo, mas meu medo de finais não resistiria a força do tempo. A força do trabalho não impediria o intemperismo da vida. O dinheiro não permitiria o hedonismo apaixonado. O meu mundo dos sonhos logo acabou e me vi diante daquilo que sempre temi, que sempre fugi.
Naquela noite, eu não tive crise de pânico de noite, eu já havia morrido com ele. Se acabou, acabou. Acabou nós, mas nunca me esqueceria. Nunca negociaria minha memórias, minhas paixões, meu desejos por um mundo que não me valorizaria nem se eu vendesse todos os meus órgãos. Daquele dia em diante não temeria mais os finais, mas sim os inícios.
Desviaria de todos os caminhos que pudesse para que a morte eu encontrasse rapidamente. Não me divertiria. Qualquer vício que eu tivesse seria aquele destinado a minha subclasse: o de acabar com a vida, o de morrer. Beberia se precisasse, fumaria se precisasse, faria tudo que eu precisasse para findar comigo. Iria a Gaza se precisasse. Tudo.
No final, segui minha vida. Resguardei nossas memórias e sempre que eu pudia, rememorava nosso amor sem graça. Acendia um incenso que me conectasse com o seu sagrado e o trabalho já não nos dividia, o que nos dividia era um grande divino, um imenso céu azul. Eu daria tudo para ver as estrelas daquele seu eu que se chamava Aristóteles, cada parte de mim. Me venderia como um produto como evitei fazer minha vida inteira. Mas não queria estragar o corpo e alma que um dia fora tocada por aquele que nunca esquecerei.