Quem foi que disse que não seria eu o mesmo ao entrar em um mesmo rio? Ou que o rio não seria o mesmo? Minha resposta é para mim e para algum também Heráclito. Gostaria de dizer que me sinto feliz por ter tido uma resposta, a resposta que me deu de novo uma mudança de perspectiva. Sabia que o rio ainda estava à margem de mim, mas é bom saber onde não posso nadar. Na verdade, o que me deixa realmente triste e diferente, é saber que minha teoria sobre o rio dizer mais sobre nós do que sobre suas águas era verdadeira, quem me trouxe isso foi a resposta. Como o mundo pode ser tão esquisito, o mundo não é para os emocionais. É estranho pensar em tudo e mais um pouco, acho que é difícil saber que nada é como se espera, mesmo que a esperança seja vaga e boba. O rio me disse que tudo que me fez mudar antes de eu entrar nele vai valer a pena, mesmo que eu diga para mim mesmo que nada disso faz sentido e que tem alguma coisa errada. Queria poder não ter vergonha da mudança antes dela acontecer, é tão ruim. E não sei a quem chamar quando me sinto sozinho e quando minha própria correnteza fica com o rumo tremeluzente, ou treme’sombra’zente. No final a sombra ou a luz, as antíteses que revelam ao mundo umas as outras as suas existências, é tudo mudança. Tudo é rio (tenho que ler esse livro).
Esther 1
Esther há dias se encontrava cansada, na verdade: há meses. Olhava ao redor e não se reconhecia, mas reconhecia aqueles que a acompanhavam. Na verdade, às vezes vivia do outro e dos lugares. Mesmo que olha-se pra si demais em busca de uma resposta. Agradecia por ter a oportunidade de estudar, de ter uma vida boa, mas queria mais, bem mais. Esse mais resultou em um menos nela, menos sono, menos saúde, menos satisfação. Mais sucesso, mais companhia, mais esforço… raciocinava como uma criança quando dormia bem pouco, e como uma velha quando recuperava o sono perdido. Não era só seu sono que andava perdido, ela andara perdida, a espreita de algo, de alguém. Andava fraca, tendo brancos de suas vivências e de seus acontecimentos. Se perguntava se era tão inteligente assim, se era mesmo necessária, se havia algo de especial nela perto da grandeza de toda a natureza que cercava a mesma. Talvez alguém aparecesse, mas ela se perguntava se seria essa a solução. Afinal, todo relacionamento começa com muito amor, mas existem as dores para provar esse mesmo amor. Não queria ver ninguém como a resposta, queria encontrar a resposta abrupta da sua vida, que vida seria essa? Que vida ela viveu esses últimos ano? Uma vida observando e sugando tudo para si? Na verdade sua aspereza que surgia quando estava cansada não representava apenas insatisfação, representava um pedido por ajuda, mas de quem, se sabia que ninguém poderia ajuda-la?. Mas talvez exista uma esperança nela, uma esperança que a faz prosseguir sempre e dar o seu melhor, o porquê? Resposta: ela sabe que não nascera talentosa, e se tivesse nascido talentosa existiria aspectos da vida dela que careceria de ajuda. Um outro lado de sua esperança era o fato de que assim como ela via a natureza e de alguma forma se encantava com a natureza magnífica das pequenas e grandes coisas (ou de um tamanho similar, como outras pessoas), alguma coisa a veria assim também. Se cansara desse papo existencialista de se colocar ao pó por não ser tudo. As partes formam a coisa toda, ela pensava isso e reafirmava: eu sou uma parte que vai formar algo. Mas queria alguém… Ela não se impressionava com a sociedade que se encontrava, globalizada e superficial, onde um corpo valia mais que uma alma. Claro que gostava de corpos e tinha a sua sexualidade, mas além de sua razão havia uma romântica alma. Ela queria alguém para que, em uma imitação muito poderosa dos átomos que se juntam para formar gases nobres em prol de estabilidade eletrônica, pudesse amar, de verdade. E talvez ela sentisse que havia uma certa pessoa. Mas daí surge outras perspectivas, afinal nem tudo é sim ou não, quem tem muitas respostas para tudo não tem para nada. A primeira perspectiva é encontrar tantas pessoas incríveis, parecia até que não era sobre as outras pessoas mas sim sobre ela, sobre seus gostos… E se a pessoa com quem via algo não fosse a pessoa com quem deveria ter algo? Quem seria afinal o príncipe que encantaria Esther: a raposa. A segunda perspectiva era de que, nossa… e se a outra pessoa realmente não fosse para ela, o que seria dela se não encontrasse alguém?. Por incrível que pareça nessa história meio romântica, ela sabia que ficara bem, não era tão carente assim. Gostava de ser independente, estudar, e até mesmo de ter tudo sob controle dependendo da situação. Mas pensava que merecia um pouco de vulnerabilidade, sim: ela precisava. Ó querida Esther, só você conhece seu coração, mas e daí, não quer ti dividir suas sombras não é mesmo? Mas em um relacionamento haveria uma divisão de sombras, como você reagiria? Cara Esther, responda-me, está preparada para olhar ao fundo de outra pessoa? Querida Esther o que fará?
Ela pede ou vê seu pensamento se calando, e vê ou pensa em como aquilo era ansiedade. Raciocina consigo mesma:
“Talvez eu não esteja pronta mesmo, quem diria não é. Mas se eu viver imaginando quando estaria pronta, nunca viverei, pois nunca somos aquilo que idealizamos. Nunca encontraremos o ápice daquilo que gostaríamos de ser, então nunca viveríamos. Além do ma…”
Agora é minha vez, não quero que você continue falando, me cansei. Voltarei ao controle de seus pensamentos por uns instantes. E quanto ao…
“Instantes? Você quer mesmo me falar sobre instantes enquanto me envolve em sua nuvem? Clarice Lispector uma vez disse, em seus pensamentos um tanto assombrosos,: o instante é a parte mínima da roda do carro que toca o chão, sendo ao mesmo tempo que instante um não instante. Há aqui uma discordância, o fluxo dos instantes que você tanto toma de mim na verdade é considerável. Já que a vida é um finito de instantes… Se bem que se eu não ceder uma parte dos meus instantes nunca terei resposta e continuarei a mesma, a mesma pessoa, a mesma mulher. Que diferente dos homens não pode se expressar livremente sua sexualidade e viver uma vida como um acéfalo que só aceita os acontecimentos. Mas, por qual motivo precisariam? Já tem esses sucesso. Uma pessoa só busca respostas de vida quando falta-lhes muitas das coisas das quais necessita. Por isso veja bem, muitas mulheres se convertem a religiosidade, alguma se tornam um pouco fanáticas claro, mas encontram nos locais de religião um espaço para construírem suas história. Mas nada disso me impressiona, é muito fácil usar o discurso de uma força divina sem nem saber ao certo se essa força está ambientada em todo universo, é simples, é convincente, mas não me traz respostas. Ao invés disso estou discutindo com meus próprios pensamentos sobre o que eu sinto, e enrolando ele (talvez mais coisas além dele), em silêncio, para que não diga o que ia dizer. Porque aliás: você sou eu… Mas continue com o seu ‘ao’ “
Aí querida, acho impressionante o fato de conversarmos mesmo que não tenhamos acesso um ao outro. Você sabe bem que não haverá continuação do “ao” pois não me permitiste uma continuação. Mas por incrível que pareça permite que eu revele isso aos leitores. Uma bela controladora… Permite ainda que eu revele de novo isso aos leitores. O que realmente sente com tudo isso: o que precisa ser dito tão urgentemente que não possa esperar? Não é sobre controle ou não controle, não é sobre nada disso não é mesmo? É sobre a vida que ainda não compreendeste, a vida que te afeta tanto… Mas tanto,. Os elementos do externo que definem quem você é. O que és? O quê?
“Não sei… Hoje estou profundamente silenciosa e dramática, não poderei a ti dizer algo tão único como a incerteza, a insegurança e a imperfeição. Nunca poderei explicar os sentimentos e ideias que tenho, nem sei se tenho essas coisas para ser sincera. O que tenho senão alma? Algo bate em mim, sinto tudo como um terremoto, cheio de lava e coisas brotando da terra. Nada vai me chegar a conclusão do motivo pelo qual a terra bate tão forte dentro de mim, e não saberei explicar seu coração em meu coração, em nosso coração. E o motivo pelo qual ela se abre em lava e lança a todos nós sua desaprovação. Tudo começou com um não quando o primeiro ser vivo comeu a outro, quando o primeiro animal se formou e trouxe a natureza a imoralidade do medo de ser comido. Tudo piorou ainda mais quando tivemos a oportunidade de existir e dominar a natureza, como seres humanos. Ela não se importou com a imoralidade e crueldade humana, mesmo que estejamos em suas mãos e nós a definimos em nossas mãos, ela não é moral ou imoral por permitir ou não nossa imoralidade, ela é. Sentimentos tão profundos esses, o sentimento de que estou presa, presa em um cubículo que chamam de escola. Sim, amo minhas amigas, e amo algo que não sei o que é (de verdade), mas por que estou preso dentro disso se existe uma complexidade muito maior? Vários mundos a serem descobertos. O mundo das formigas, das abelhas, dos alienígenas. Por que mesmo tudo sendo tudo, me sinto tão a parte essencial para que esse tudo exista, ao mesmo tempo que só uma parte. Por que o ego humano surgiu em sua imoralidade e necessidade de dominar o outro? Fodasse se usei a regra dos porques errado nas últimas linhas, mesmo que minha professora de português já tenha ensinado, e seja uma fofa. Coitada, ele deve ter tantos sentimentos bonitos, mas é meio subestimada. Há um poder em suas mão, há obviamente um poder oculto que nos representa… mesmo, isso talvez seja a dominação. Existe um fio que liga a todos nós, às raízes do mundo. O que faria eu vendo meus amigos sofrendo e sabendo que um espírito de herói não mudaria NADA, que meu espírito é só o de entender que estamos ligados nas mesmas raízes. Aquele papo superficial de: “deixa eu te ajudar aqui, mas é só para amaciar meu ego e dizer que sou uma boa garota”. Vai se fuder, sinceramente, não existe solução que possamos fazer para o problema dos outros, enquanto não somos esses outros. Mas nos conectamos pelo fato de sermos tão diferentes, uma linha fundamentou e fortaleceu a nossa existência correlacionada. Eu amo… eu existo, eu vivo, e como termino esse pensamento? Como? O que é essa dor de viver do mundo… dor de comer e ser comido, dor de animal, dor viva. Suponho que seu “ao” seja em referência a alguém, mas esse “ao” de verdade é em relação a minha existência, simples existências que se direciona ao mundo, e a alguém.”
ensaio sobre o terreiro da vó maria lúcia
enquanto sentado na escada, recebo sol e consigo enxergar um recorte do pé de limão. ele me convida, mas sei que não posso ir. gostaria muito de morar em suas raízes, dividindo espaço com o naipe de insetos que a fração de terra do terreiro detém. será que as pedras que ali estão já foram abraçadas hoje? ao tocá-las talvez eu possa movê-las para, quem sabe, encontrar um portal que me leve até a terra onde todos os vestidos são costurados a partir de galhos secos e folhas que se abrem durante as noites. o gato passou no terreno acima. acho que ele encarava minha consciência enquanto eu subia até o alto desses delírios para descer com meu carrinho de limão. perdi-o de vista, mas queria é peguntar, perguntar se ele tem um deus guardado no bolso para me dar. curiosidades. me pergunto: quanto do romance entre o limoeiro e o pé de mamão já se derramou sobre aquele muro cinza que está ali? as coisas baseiam-se em momentos de estar e momentos de já não estar mais e acabo de lembrar de que hoje não se choram mais contas de lágrimas no chão desse quintal. começou quando uma irmã, ninada nos ritmos de um caxixi enfeitado de azul, caiu do batuque em encontro com a terra. embrenhando-se na não mais existente fresta do bloco de cimento – palco onde as sombras do jardim se apresentam sobre os lampejos de insetos -, ela pediu licença à terra e disse como queria ficar mais próxima daquele véu azul tão similar ao que ela conhecia de dentro do instrumento originário. esticou-se por meses e chegou o dia em que ela se foi. já encostei mais em pedaços de concreto do que em terra viva. de repente deveria mudar isso, pois talvez os couros, as madeiras, as cordas, o ferro e o ar responderiam melhor ao meu toque. acho que não entendi muito bem quando meu espírito clamou de fome e eu o projetei sobre o pé de alface.
matemática universal
meu espírito se inclina a ti vida!
meu espírito se volta a ti morte!
no final me volto ao cosmos e viro matemática.
se a resposta é um axioma
ou se é só mais uma indeterminação,
hás de me responder, ó universo!
Amor materno
Todos dizem que é um amor incondicional e inexplicável.
Será que o meu amor incondicional existiu algum dia?
Ou esse incondicional é tão frágil que se quebra por uma opinião diferente da sua?
Como eu posso sentir falta do amor que eu nunca tive?
Como um amor pode ser assim tão dolorido? Mesmo você me magoando profundamente com suas palavras, eu continuo te amando?
As palavras que saem da sua boca doem como um tiro no peito, você sabe exatamente onde acertar? Ou dói pq é você que está falando?
Se quem me gerou por 9 meses em seu ventre não se orgulha de quem eu sou, pq eu me orgulharia de mim?
Acho que esse amor não é tão incondicional assim, porque depois de tanta dor eu percebi que eu não sou a errada da história
Eu sou a vítima que é feita de culpada pela pessoa que mais deveria me amar
Mas com o tempo percebi que o amor incondicional não vem com o vínculo sanguíneo, ele vem de outros lugares também
Já que nunca tive o seu amor, eu procurei em outro lugares e achei amores incondicionais, que me amam por ser quem eu sou, que me acolheram no meu pior momento.
Que engraçado é o amor, você acolher uma completa desconhecida e incluí-la na sua família, me mostra que o amor não é doloroso igual vc me mostrou.
O amor é leve e vc não fica vulnerável demostrando seu amor pelas outras pessoas
E esse é o amor mais bonito, o amor que vc escolhe.
Você decide amar aquela pessoa pelo que ela é e não por uma obrigação sanguínea.
Eu sou grata por cada pessoa que me acolheu e escolheu me amar do meu jeito.
E as vezes, tento entender o porquê é tão difícil pra você demostrar o seu amor por mim, se ele realmente existe como você diz, se vc me ama mais que todo mundo nessa terra, pq que a minha maior tristeza vem de você?
Pq que com meus irmãos é um tratamento diferente do meu? É pq sou mulher? E não sou digna do seu amor carinhoso?
Por ser mulher eu tenho que aguentar esse “amor” que dói minha alma e corrói todo meu ser?
Que me faz ter medo de ser mãe e seguir os mesmos passos que os seus, pq se isso acontecer eu me odiaria profundamente?
Acho que o problema é realmente comigo, não fui a filha que você idealizou toda a sua vida, sou total oposto disso.
Mas com muitos anos de terapia eu decido cortar aqui o meu vínculo com você
Decido que eu sou mais importante do que esse amor incondicional que todo mundo fala, que você fala ….
Eu me amo mais do que isso, e não aceito mais migalhas do seu amor, que sempre vem com segundas intenções.
A culpa não é minha por tudo aquilo que você me disse, que vai doer eternamente no meu coração.
A culpa não é minha por você não me amar como eu deveria ser amada, você deveria ser o meu primeiro e verdadeiro amor mas acabou virando minha primeira decepção amorosa.
Eu escolho quebrar esse ciclo e tirar da minha vida todos que me fazem mal inclusive você, mesmo que me doa muito.