Tento acordar.
Acordar do sono que me aprisiona,
mas essa parte é fácil.
Difícil é levantar a bigorna que tenho no peito.
Uma vez feito isso, o céu anuncia
que eu hei de me mexer.
E é vagando pela rua
que percebo que com mais um minuto
perdia o ônibus.
Sentado o dia todo então percebo
que o peso há de voltar.
Até o meio dia, já voltou.
À noite, então, é que parece
que não vai mais embora.
Vai, porém, por poucas horas,
até se encontrar novamente
com meu peito aberto
em mais um amanhecer.
Árvore da Felicidade
Para Toninho Costa
De um amigo ganhei
uma árvore da felicidade
importante frisar: fêmea!
Escolhi para ela os lugares
mais bonitos da casa:
à meia escada de sol,
no raio de luz do corredor,
ao lado do pé de arruda
bem junto do manjericão
ela não crescia
ficava minguada em todo
e qualquer canto
pensei que ia morrer
Clarice,
clandestina também era
a nossa felicidade
num golpe de misericórdia
coloquei-a na mesa de cabeceira
tornou-se um livro
de folhas estriadas
lido em outra língua
só assim viverdiou
e cresce cada dia
a florescer sonhos
e enraizar pesadelos
morpheu
ele chega sem pedir licença
e toma-me em seus braços
minha consciência não é mais minha
e o sono se apossa de mim
não importa a hora nem o lugar
ele me consome
presente
acho que eu vivo em luto por todas as vidas que eu não vivi e não vou viver. Pelo menos não nessa presente vida.
presente. agora.
eu não moro em paris e debato sobre os problemas sociais do mundo em um café tradicional. nem saio por ai numa vespa na itália ou no por do sol de mônaco. nem acordo cedinho todos os dias pra fazer feira. e muito menos faço parte de um grupo de protesto hippie em San Francisco.
mas meu agora é presente. presentão.
algumas coisas são de outras vidas, mas que sensacional viver onde eu tô agora. de ter tempo pra pensar em todas essas outras vidas e nessas outras pessoas e nesses outros lugares.
pra ver todos esses tudos não queria ser passarinho e nem mosquito; não queria ser vento e nem luz; afinal, passarinho vive a mercê da estação, mosquito tem vida curta, vento é infinito e a luz viaja rápido demais, nem dá pra aproveitar. pra ver tudo isso eu só queria ser eu, mas da maneira mais sincera possível. queria ser eu vendo toda a vida acontecer, enquanto ainda temos tempo.
temos tão pouco tempo e tantos tudo.
onde fica o eu que queria ser bailarina, jogadora de vôlei, astronauta, oceanógrafa, professora, sereia, peixe, girafa, dinossauro…?
por enquanto, me contento ser eu. mas só por enquanto.
aos que seguem
os besouros lançam-se contra a luz das lâmpadas em tentativas de se transformarem em vaga-lumes
correndo em direção ao sol, o que eu iria me tornar?